Mudança de estilo de vida deve anteceder canetas emagrecedoras e cirurgias na obesidade infantil, orientam diretrizes

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DIRETRIZES DA SAÚDE — O uso de canetas emagrecedoras (medicamentos injetáveis) e de intervenções cirúrgicas para perda de peso não deve ser a primeira opção de tratamento para crianças e adolescentes diagnosticados com obesidade. A recomendação prioritária estabelece que o acompanhamento seja fundamentado em programas estruturados de reeducação alimentar, prática regular de exercícios físicos e acompanhamento comportamental, organizados de forma individualizada ou em abordagens multidisciplinares.

Segundo as orientações mais recentes, o uso das canetas emagrecedoras, tratamentos farmacológicos em geral e cirurgias estão contraindicados para a faixa etária de 0 a 9 anos. Para jovens de 10 a 19 anos, o tratamento com canetas e medicamentos aprovados só deve ser avaliado caso as mudanças de hábitos supervisionadas não apresentem os resultados esperados. Já a cirurgia de redução de estômago fica restrita a quadros severos da doença na juventude, sob critérios extremamente rígidos.

Além do tratamento focado no peso, o acompanhamento psicológico é apontado como parte indispensável do cuidado. Condições como ansiedade, depressão e baixa autoimagem impactam diretamente a relação com a comida e o isolamento social. Por isso, a orientação é que o suporte emocional e o envolvimento familiar ocorram de forma integrada desde o início do tratamento.

Panorama do excesso de peso em crianças e jovens

No Brasil, os dados mais recentes indicam que 16,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com sobrepeso ou obesidade. Desses, 6,6 milhões estão na faixa de 5 a 9 anos, enquanto 9,9 milhões têm entre 10 e 19 anos.

O impacto dessa condição na saúde do público infantojuvenil já se reflete em diagnósticos precoces de doenças crônicas:

4 milhões apresentam acúmulo de gordura no fígado;

1,8 milhão possuem níveis elevados de triglicerídeos;

1,4 milhão desenvolveram hipertensão arterial relacionada ao índice de massa corporal;

572 mil foram diagnosticados com taxas elevadas de açúcar no sangue.

Projeções para 2040 sinalizam um avanço contínuo do problema no país, com estimativas de que a hipertensão atinja mais de 1,6 milhão de jovens, o acúmulo de gordura no fígado chegue a 4,6 milhões, os triglicerídeos altos afetem 2,1 milhões e a hiperglicemia alcance 635 mil pacientes nessa faixa etária.

Escala global e avanço dos ultraprocessados

Em nível mundial, a obesidade ultrapassou a desnutrição como a principal forma de má nutrição entre estudantes de 5 a 19 anos. Em todo o planeta, aproximadamente 188 milhões de jovens vivem com a condição — o equivalente a 1 em cada 10 indivíduos do grupo. Historicamente, a taxa de desnutrição nessa faixa etária caiu de quase 13% no ano 2000 para 9,2%, enquanto a prevalência da obesidade saltou de 3% para 9,4% no mesmo período.

No cenário brasileiro, essa inversão ocorreu antes do ano 2000. O índice de crianças e adolescentes com obesidade no país subiu de 5% em 2000 para 15% em 2022, enquanto a proporção de sobrepeso dobrou de 18% para 36%.

Análises do setor indicam que a expansão da doença é fortemente impulsionada pela facilidade de acesso a produtos ultraprocessados e alimentos de baixo valor nutricional, que se tornaram mais baratos e amplamente disponíveis do que itens frescos. Esse cenário afeta principalmente famílias de menor renda socioeconômica.

Entre as medidas apontadas para conter a expansão do problema e reduzir a necessidade de intervenções drásticas ou uso prévio de canetas emagrecedoras na juventude, estão a aplicação de impostos sobre alimentos ultraprocessados, a restrição da publicidade voltada ao público infantil, o incentivo ao consumo de refeições saudáveis no ambiente escolar e o fortalecimento de programas públicos de alimentação.

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