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“Conduzindo Miss Dayse”

José Passarelli

Via José Passarelli | Publicado por Alcina Reis | às 03:56:36

Eu tinha me formado em engenharia civil e fazia pós-graduação na escola de engenharia de São Carlos-EESC-USP. Morava em uma pensão chamada Paraíso, era um casarão do século passado, que diziam ser assombrada, nunca esses fantasmas fizeram nada comigo, talvez por pensarem que também fosse um fantasma de porão. Há duas quadras de onde eu estava instalado, residia uma senhora de uns oitenta anos, toda vez que eu passava por lá, ela estava sentada em uma cadeira de balanço, com um bule de chá, uma xícara, um pires com pães de queijo e uma jarra com água. Era uma mulher muito bonita, devia ter sido bela quando nova.


Meu trajeto para a universidade era aquele e eu ficava olhando aquela linda mulher sozinha na varanda da casa. Um dia passei em frente e ela me cumprimentou, devolvi abaixando a cabeça.


Num domingo cedo, eu estava passando para ir à missa e ela me chamou: - Psiu, moço? Respondi: - Bom dia! Ela emendou: - Você pode entrar aqui onde estou? Retruquei: - Sim senhora! Adentrei o recinto, apertei a mão dela e esperei ela dizer: - Por que você fica me olhando quando cruza a frente de minha casa? Sorri e disse a ela: - Porque eu acho a senhora muito bonita! No que ela disse: - Você também é! Está me paquerando? Sabe quantas vezes sou mais velha do que você? Disse-lhe: - Umas três! Ela respondeu: - Pois é, pode continuar seu caminho e não fique mais olhando para mim! Saí dali arrasado, imaginar que ela achava que eu estava dando em cima dela? Nunca me passou pela cabeça tal pensamento.


No outro dia passei cedo lá, porém, mais rápido, mas mesmo assim ela me viu e disse: - Bom dia galanteador de velhas! Para atacar idosas, você só pode ser descendente de italianos! Venha cá, sente aqui e me diga o seu nome! Rindo abertamente eu disse; - José Passarelli! E ela: - Eu sabia! Eu tinha certeza que era um paquerador barato e contumaz, coisa de italiano, fui casada com um parecido com você, alto, forte, um que não valia nada, até que coloquei-o para correr, aquele vagabundo! Conte o que faz aqui em São Carlos! Contei a ela e ela olhou nos meus olhos e disse: - Você sabe dirigir? Tem habilitação? Mandei: - Sei sim senhora! Sou habilitado também e piloto aviões! Ela falou: - Aviões? É metido a Santos Dumont também? Você é maluco! Aliás, todos esses garotos como você que veem estudar engenharia, física, matemática, química aqui, não são normais, têm algo de errado com eles. Ou têm um parafuso a mais ou a menos. Apenas sorri e ela continuou:- Sou sozinha e estou com muitas dores na coluna devido ao frio dessa cidade, não estou conseguindo dirigir. Será que você poderia me levar ao supermercado. Emendei: - Sim senhora, será um prazer! Ela séria: - O quê? Prazer seu atrevido! Pegue seus livros e vá para a faculdade! Esteja amanhã aqui quando sair das aulas pela manhã, vamos fazer as compras e eu lhe pago um almoço!


Como o combinado, eu estava lá para irmos as compras. Com muito sacrifício consegui fazê-la com que entrasse no banco traseiro de seu opala grafite diplomata 6 cilindros novinho em folha. Feitas as compras levei-a para casa e guardei o carro na garagem. Na hora de nos despedirmos, ela falou: - Venha cá italiano sem vergonha, vou dar-lhe um beijo de agradecimento, mas não se acostume! Me deu um beijo na testa e cheguei na universidade com a marca do batom caríssimo que ela usava, virando alvo de gozação. Quem iria acreditar que uma senhora de 83 anos tinha me dado um beijo. Ficamos amigos, depois disso ainda levei dona Dayse ao oculista, a restaurantes, a salões de beleza, ao aeroporto.


Amanhã cedo conto o final desse amor e respeito.

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