Terremotos gêmeos mortais são um golpe duro para a economia venezuelana, que já está de joelhos

O governo venezuelano declarou estado de emergência e iniciou operações de busca e resgate | Créditos: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters


O terremoto mais forte a atingir a Venezuela em mais de um século não poderia ter vindo em um momento pior para o país.

A economia, outrora próspera da nação latino-americana, já havia sido paralisada por anos de sanções lideradas pelos Estados Unidos, hiperinflação, corrupção governamental e má gestão do setor de petróleo, apesar de estar assentada sobre as maiores reservas de petróleo do mundo. Seu PIB encolheu cerca de 80% desde 2013.

Depois veio a captura do ex-presidente Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro.

Em seu lugar, a presidente interina Delcy Rodríguez tem liberalizado a economia com cautela e atraído empresas estrangeiras de petróleo, enquanto busca favorecer Washington de forma pragmática e tenta o alívio das sanções esmagadoras.

Mas, embora os EUA tenham flexibilizado as sanções e a produção de petróleo tenha aumentado gradualmente, a inflação continua alta e os cidadãos comuns continuam a lutar contra os baixos salários.

Em 2025, quase 8 milhões de pessoas, ou cerca de um terço da população, precisavam de assistência humanitária, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas).

Serviços e bens básicos, desde encher o tanque até comprar medicamentos genéricos na farmácia, podem ser difíceis na Venezuela, já que o país sofre com a escassez crônica de itens do dia a dia. A emergência humanitária causada pelos dois terremotos colocará ainda mais pressão sobre a já sobrecarregada cadeia de suprimentos.

Enquanto isso, a crucial indústria petrolífera do país precisa de bilhões de dólares em investimentos para chegar perto dos dias gloriosos do final dos anos 1990, quando a produção estava no auge.

Um desastre natural dessa magnitude reduzirá severamente as frágeis esperanças de reviver a economia, sem mencionar o potencial de milhares de vítimas e danos generalizados.

Após anos de devastação econômica e subinvestimento nos serviços públicos, a infraestrutura do país – de hospitais a eletricidade e água – está mal equipada para lidar com uma crise como essa.

Modelagens iniciais do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) estimam que muito provavelmente haverá perdas econômicas entre US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51 bilhões, na cotação atual) e US$ 100 bilhões (cerca de R$ 519 bilhões, na cotação atual) – sendo que a cifra mais alta equivale aproximadamente ao tamanho de toda a economia venezuelana.

Além de edifícios desmoronados, o forte tremor causado pelos terremotos também pode provocar incêndios ao romper tubulações de gás ou danificar sistemas elétricos, disse a Dra. Lucy Jones, sismóloga do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Esses impactos em cascata podem agravar o desastre, com os incêndios às vezes duplicando as perdas econômicas de um grande terremoto, acrescentou ela.

Estado de emergência

Mas, com uma economia em dificuldades, não há uma forma clara de o governo apoiar um sistema de saúde que poderá em breve ficar sobrecarregado, ou cobrir os custos de reconstrução, tudo isso enquanto Caracas negocia os termos básicos de seu retorno à economia global.

Para uma população que já enfrenta a pobreza, esses terremotos de duplo impacto atingiram no pior momento possível.

Em um pronunciamento na televisão na noite de quarta-feira (4), Rodríguez declarou estado de emergência.

Ativamos toda a rede de saúde pública e privada do país – particularmente nas áreas mais afetadas – para tratar os feridos durante este momento altamente sensível para a população”, disse ela, acrescentando que uma força-tarefa de alto nível foi formada para supervisionar as operações de busca e resgate.

O deposto e preso Maduro expressou sua solidariedade ao povo venezuelano, de acordo com uma publicação em seu canal oficial no Telegram.

“Hoje, há apenas uma mensagem: união máxima, solidariedade máxima e ação máxima”, dizia a mensagem em nome de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores de Maduro, que estão atualmente sob custódia federal em Nova York, enfrentando acusações de tráfico de drogas e armas após serem capturados por forças dos EUA em janeiro.

Uma das líderes da oposição de maior destaque no país, María Corina Machado, compartilhou sua dor no X.

“Meu coração, meu abraço infinito e minhas orações estão com cada lar venezuelano nestas horas de angústia”, disse Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado e vive no exílio, enfrentando perseguição em seu país.

Os EUA vão dar um passo à frente?

Os terremotos de quarta-feira agora testarão até onde os EUA estão dispostos a ir para apoiar a Venezuela, um país que o presidente Donald Trump disse que os EUA iriam “comandar” assim que ele removesse Maduro por força militar.

Trump tem propagado o sucesso da intervenção dos EUA na Venezuela e sua improvável parceria com Rodriguez.

Apenas um dia antes de os terremotos mortais atingirem a Venezuela, Trump disse que o país estava “indo muito bem” em um comício na Pensilvânia.

“Estamos nos dando muito bem. As pessoas que o comandam são o nosso povo, são ótimas pessoas. E as pessoas estão felizes no país. Elas têm sorrisos. Elas eram miseráveis, estavam morrendo de fome”, disse Trump.

Trump também disse que os EUA já “pagaram o custo da guerra 28 vezes” ao extrair milhões de barris de petróleo. “Agora estamos ganhando muito dinheiro com a Venezuela e a Venezuela está indo muito bem.”

Após o terremoto, Trump disse que os EUA “estão prontos, dispostos e capazes de ajudar” em uma publicação no Truth Social no final de quarta-feira.

“Instruí todas as agências do nosso governo a se prepararem para agir rapidamente”, escreveu Trump. “Estaremos lá para os nossos novos e grandes amigos.”

O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que os EUA enviariam imediatamente equipes de busca e resgate, recursos médicos e assistência humanitária para a Venezuela.

Muitos na Venezuela agora esperarão para ver se essas promessas da nação mais rica do mundo se transformarão em ações concretas.

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