“O Cheiro de Borracha Queimada”


Deixa eu ser direta, sem rodeios ou floreios: a CPI dos Ônibus na Câmara Municipal de Campo Grande se revelou um espetáculo de pirotecnia que não acendeu sequer um farol quebrado nas sucatas que circulam pela cidade. Meses de trabalho, montanhas de depoimentos, promessas de punição e o resultado? Um grande barulho para nada, um inchaço burocrático que só serviu para confirmar o que todos os passageiros já sabiam.

O Consórcio Guaicurus foi flagrado com a boca na botija: frota envelhecida, descumprimento contratual e, pasmem, segundo as investigações, priorizando o lucro em detrimento da qualidade do serviço. A idade média dos ônibus beira os nove anos, muito acima do limite contratual de cinco. E o ar-condicionado? Aquele conforto mínimo, prometido e essencial no calor de Mato Grosso do Sul, permanece uma miragem, mais difícil de encontrar que a tal “orelha de freira”: todo mundo jura que existe, muitos juram ter visto, mas sempre falta a prova material.

A Ineficácia Vestida de Terno

O mais revoltante, no entanto, é o papel da Câmara Municipal. Ao instaurar a CPI, gerou-se uma expectativa de mudança real, de fiscalização implacável. Mas o que se viu foi a ratificação da ineficácia institucional. O relatório final pode até sugerir intervenção e indiciamentos, mas o que acontece de fato? O Consórcio continua operando, os ônibus continuam quebrando e o passageiro segue pagando uma das tarifas mais caras do país por um serviço que beira o desumano.

A Câmara, que deveria ser a voz e a fiscal do povo, parece ter se contentado em apontar o dedo para o Consórcio, sem garantir que a punição e a melhoria se concretizem. Para que tanto gasto e desgaste, se no final, a única coisa que muda é a data da próxima reunião e não a qualidade do ar que o passageiro respira (ou a falta dele)?

É um deboche. É a Câmara armando o palco e o Consórcio Guaicurus dançando a valsa da impunidade, tudo às custas da nossa dignidade. O povo de Campo Grande segue amontoado em latas velhas, ardendo de calor e atrasando-se para o trabalho, enquanto a classe política e empresarial desfruta das mordomias que são sustentadas, indiretamente, pela nossa tarifa.

A CPI acabou, mas o problema continua circulando nas ruas. O show de horror terminou, mas os usuários do transporte ainda estão na plateia. 

Resta saber: quando é que a sociedade vai se cansar desse circo e resolver ir para a rua cobrar um transporte decente, exigindo o mínimo de respeito que lhes é de direito?

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS

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