Larva que devora tecido vivo já infectou mais de 500 pessoas no México

| Créditos: Reprodução Wikimedia Commons


O avanço da mosca-varejeira-do-Novo-Mundo (Cochliomyia hominivorax) voltou a colocar autoridades sanitárias em alerta no México. Mais de 500 pessoas já foram infectadas no país desde o reaparecimento do parasita, cuja larva invade feridas e se alimenta de tecido vivo.

A evolução recente dos casos humanos foi analisada em um estudo publicado na revista científica Emerging Infectious Diseases. Os pesquisadores avaliaram 202 diagnósticos confirmados de miíase registrados entre abril de 2025 e março de 2026 e identificaram uma aceleração das ocorrências.

Durante 2025, a média ficou próxima de três novos casos por semana. Em 2026, o ritmo ultrapassou nove registros semanais.

Dos pacientes incluídos na pesquisa, seis morreram. A infestação foi apontada como causa direta de uma das mortes. Nos outros cinco casos, havia doenças ou complicações graves associadas, entre elas câncer, encefalite, insuficiência respiratória e choque séptico.

Como ocorre a infestação

A miíase começa quando a fêmea da mosca deposita centenas de ovos em ferimentos, áreas inflamadas, mucosas ou orifícios naturais de animais de sangue quente, inclusive seres humanos.

A eclosão pode ocorrer em aproximadamente 24 horas. A partir daí, as larvas passam a consumir tecido vivo e ampliam progressivamente a lesão.

Quando não há tratamento, a invasão pode alcançar estruturas mais profundas, como músculos, cartilagens e ossos. Dependendo da localização da ferida, até o crânio pode ser atingido. Infecções secundárias, sepse e sequelas permanentes estão entre as possíveis complicações.

A retirada das larvas e o atendimento médico precoce são fundamentais para impedir a progressão do quadro.

Homens e idosos concentram os casos

O perfil dos 202 pacientes estudados mostrou predominância masculina. Foram 145 homens, o equivalente a 72% do total.

As idades variaram de 12 a 93 anos, com média de 61 anos. Cerca de 77% das pessoas diagnosticadas tinham pelo menos uma condição de saúde preexistente. Diabetes, alcoolismo, câncer e doenças dermatológicas estavam entre as mais frequentes.

Pernas e pés concentraram 55% das infestações. Também houve registros na cabeça e no pescoço, inclusive em nariz, boca e olhos, além de braços, tronco, orelhas, órgãos genitais e cavidade abdominal.

Ainda não há uma explicação definitiva para a maior proporção de homens entre os infectados. Os pesquisadores consideram fatores como exposição profissional, atividades realizadas ao ar livre, contato com animais, presença de feridas sem tratamento e demora na procura por assistência médica.

Retorno da mosca acompanha surto entre animais

O México havia declarado a erradicação da mosca-varejeira-do-Novo-Mundo em 2003. O Panamá anunciou o mesmo resultado em 2006 e manteve durante anos uma barreira biológica na região de Darién, próxima à fronteira com a Colômbia.

Essa contenção foi rompida em 2022. Dois anos depois, o México voltou a identificar o parasita em animais.

Desde então, a disseminação se intensificou. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam mais de 36 mil infestações em animais no território mexicano. Em 5 de agosto, quase 2 mil casos permaneciam ativos.

Considerando também outros países da América Central, estimativas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) indicam cerca de 2.360 infecções humanas.

Os locais onde surgem casos em pessoas coincidem, em grande parte, com as áreas onde animais também estão sendo afetados. Para os autores do estudo, essa relação reforça a necessidade de ações integradas entre os setores responsáveis pela saúde humana, veterinária, agricultura e vida selvagem.

“A coordenação entre os setores de saúde humana, saúde animal, vida selvagem e agricultura será essencial para orientar as medidas de prevenção e controle”, afirmam os pesquisadores.

Entre as medidas defendidas estão a ampliação da vigilância, a capacitação dos serviços de saúde para identificar rapidamente a doença, o controle do transporte de animais e ações contra a proliferação da mosca antes que novas regiões sejam atingidas.

Estados Unidos registram casos em animais

A expansão recente também chegou aos Estados Unidos. Em junho de 2026, o Texas registrou os primeiros casos em animais relacionados à atual onda de disseminação. Desde então, o USDA contabilizou 45 ocorrências no país.

Até agora, não há registro de transmissão humana nos Estados Unidos relacionada diretamente a esse ressurgimento. Casos de miíase já foram identificados, porém, em pessoas que viajaram para a América Central e outras regiões onde a mosca continua presente.

Bicheira é conhecida no Brasil

No Brasil, a Cochliomyia hominivorax não é uma novidade. A infestação provocada por suas larvas é popularmente conhecida como bicheira e ocorre há décadas no país, inclusive em animais de criação.

Pessoas idosas estão entre os grupos mais vulneráveis às complicações, principalmente quando apresentam dificuldades para cuidar de feridas ou outras condições de saúde.

Em março de 2026, uma mulher de 87 anos foi encontrada com larvas na boca e na gengiva durante um resgate em uma casa de repouso clandestina em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Ela permaneceu internada por uma semana e morreu no fim daquele mês.

Outro episódio chamou atenção em 2022, quando uma mulher de 67 anos foi atendida no Hospital Universitário de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com larvas no nariz e na boca.

A prevenção inclui cuidados de higiene e limpeza adequada de machucados, já que secreções e odores de feridas podem atrair as moscas. Depois da postura dos ovos, as larvas podem se tornar visíveis em poucos dias.

Ao identificar uma infestação ou suspeitar da presença de larvas em uma ferida, a orientação é buscar atendimento médico rapidamente para que os parasitas sejam removidos e a extensão das lesões seja avaliada.

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