Bolha de IA estoura na China com perda de US$ 480 bi e acende alerta global no setor tecnológico
- porR7
- 28 de Outubro / 2026
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A desvalorização de empresas chinesas de inteligência artificial e semicondutores provocou a perda de aproximadamente US$ 480 bilhões (cerca de R$ 2,6 trilhões) em valor de mercado em menos de quatro meses. O recuo interrompeu um ciclo de valorização que durava dois anos e ampliou as preocupações sobre os preços das ações de tecnologia e as perspectivas de crescimento do setor.
Segundo a agência Reuters, a queda foi impulsionada por preocupações com as avaliações elevadas das companhias, dúvidas sobre a demanda por tecnologias de inteligência artificial e o risco de novas restrições comerciais a produtos chineses utilizados em centros de dados.
O impacto foi particularmente forte no índice STAR 50, que reúne empresas de tecnologia listadas na China continental. As ações de companhias de IA e semicondutores perderam cerca de 40% do valor em menos de quatro meses.
A retração também atingiu o mercado acionário chinês de forma mais ampla. O CSI 300, índice que acompanha ações de grandes empresas do país, recuou aproximadamente 20% em relação ao pico registrado em junho.
Nos Estados Unidos, as ações de tecnologia também sofreram perdas, mas em proporção menor. O Nasdaq caiu cerca de 6% em relação ao recorde alcançado três semanas antes, segundo a Reuters.
A intensidade da correção na China reflete a valorização acumulada pelas empresas do setor nos últimos anos, período em que as expectativas sobre o potencial comercial da inteligência artificial estimularam a procura por ações de fabricantes de chips, fornecedores de componentes e empresas de robótica.
O gestor de fundos Dong Baozhen, baseado em Pequim, afirmou à Reuters que o mercado passou a apresentar níveis excessivos de especulação antes da reversão dos preços.
Fabricantes de chips e robôs estão entre os mais afetados
A queda atingiu companhias que haviam registrado fortes altas na bolsa, incluindo fabricantes de robôs e semicondutores. A Unitree, conhecida pela produção de robôs humanoides, teve suas ações desvalorizadas em aproximadamente 50% desde o início das negociações, em agosto. A oferta pública inicial da empresa havia despertado grande interesse entre investidores de varejo.
No setor de chips, a CXMT perdeu mais de um quarto de seu valor em um mês. Já as fabricantes MetaX Integrated Circuits e Moore Threads Technology, que registraram altas de aproximadamente 700% e 400%, respectivamente, em suas estreias na bolsa no ano anterior, também viram suas ações recuarem cerca de 50% desde julho.
A desvalorização alcançou ainda empresas que fornecem componentes ópticos para equipamentos de processamento de dados. As ações da Zhongji Innolight e da Eoptolink Technology caíram aproximadamente 60% em relação aos picos registrados em junho e julho.
Segundo a Reuters, as preocupações com possíveis restrições dos Estados Unidos ao fornecimento de equipamentos chineses para centros de dados contribuíram para a pressão sobre esses papéis.
A dimensão das perdas está relacionada ao peso das empresas ligadas à inteligência artificial no mercado chinês. De acordo com estimativas do Goldman Sachs citadas pela agência, essas companhias representavam 42% da capitalização de mercado e 57% do volume negociado nas ações A, listadas na China continental, e nas ações H, negociadas em Hong Kong.
A concentração aumentou a exposição dos investidores à correção. Com a queda dos preços, participantes do mercado passaram a buscar alternativas consideradas mais defensivas, movimento que também pode dificultar a captação de recursos por empresas de tecnologia.
A desvalorização não foi desencadeada por um único acontecimento. Entre os fatores apontados por investidores ouvidos pela Reuters estão os preços elevados dos papéis, mudanças tributárias e a possibilidade de novas barreiras comerciais contra produtos chineses.
As restrições tecnológicas de Washington são uma preocupação para empresas que fornecem componentes e equipamentos utilizados na infraestrutura de inteligência artificial. Medidas adicionais podem limitar o acesso dessas companhias a mercados estrangeiros e comprometer as expectativas de crescimento.
Mesmo após as perdas recentes, as avaliações de parte do setor continuam elevadas. O índice STAR 50 era negociado a cerca de 100 vezes o lucro acumulado pelas empresas nos 12 meses anteriores, abaixo do pico próximo de 250 vezes. O múltiplo permanecia superior ao do Nasdaq 100, estimado em aproximadamente 30 vezes o lucro no período citado pela Reuters.
A diferença reforça a preocupação de que os preços ainda não reflitam integralmente os riscos enfrentados pelas empresas chinesas de tecnologia, aponta a Reuters. Para Hong Hao, sócio-gerente e diretor de investimentos da Lotus Asset Management, em Hong Kong, a queda também pode afetar futuras ofertas públicas de ações, ao tornar mais difícil a captação de recursos por empresas que pretendem ingressar na bolsa.
A correção representa ainda um obstáculo para os esforços de Pequim para fortalecer o mercado acionário e estimular a população a investir em ações. O objetivo é ampliar as fontes de financiamento das empresas e apoiar o desenvolvimento de setores considerados estratégicos, entre eles a inteligência artificial e a fabricação de semicondutores.
Nos últimos anos, as autoridades chinesas adotaram medidas para conter a especulação e reduzir a volatilidade das negociações. Investidores ligados ao Estado também venderam ações durante períodos de alta, em uma tentativa de limitar a valorização excessiva.
A rápida ascensão das empresas de inteligência artificial, no entanto, evidenciou a dificuldade de manter o interesse dos investidores sem estimular movimentos especulativos. Leo Wang, sócio da Qianchuang Capital, afirmou à Reuters que a concentração de recursos em empresas de tecnologia pode distorcer a distribuição de capital e prejudicar outros setores da economia.
Apesar da correção, parte do mercado considera que a redução dos preços pode abrir oportunidades para investidores dispostos a assumir riscos. O Goldman Sachs incluiu empresas como a Innolight e a CXMT em uma lista atualizada de ações chinesas relacionadas à inteligência artificial.
William Bratton, estrategista do BNP Paribas Securities, também identificou oportunidades de compra no mercado chinês para investidores cautelosos, segundo a Reuters. Uma pesquisa do HSBC citada pela agência indicou, por outro lado, que fundos asiáticos ainda mantinham exposição elevada à China, embora tivessem reduzido posições nos três meses anteriores.
A perspectiva de recuperação depende da capacidade das empresas de transformar as expectativas em resultados financeiros e de enfrentar a concorrência. O gestor Wang Zhuo, da Shanghai Zhuozhu Investment Management, alertou para a possibilidade de uma disputa de preços entre fabricantes chineses de chips e fornecedores de soluções de inteligência artificial.






