TDAH não se diagnostica com um clique: psiquiatra do Humap-UFMS alerta para riscos dos testes nas redes sociais
- porRedação
- 21 de Outubro / 2026
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| Créditos: GOV Br
squecer compromissos, perder objetos, procrastinar ou ter dificuldade para manter a concentração. Com a popularização dos conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais, comportamentos como esses passaram a ser frequentemente associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Testes on-line e vídeos que prometem identificar sinais do transtorno podem despertar dúvidas, mas também levar a conclusões precipitadas sobre a própria saúde.
No Outubro Laranja, mês dedicado à conscientização sobre o TDAH, o psiquiatra Kleber Vargas, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), filiado à HU Brasil, alerta para a importância de buscar orientação profissional antes de atribuir determinados comportamentos ao transtorno.
“Nem todo sintoma significa necessariamente que o indivíduo tem uma doença”, explica o médico. Segundo ele, manifestações como tristeza, desatenção e dificuldade de concentração precisam ser compreendidas dentro do contexto em que ocorrem. Uma pessoa que fica triste após um conflito, por exemplo, pode estar apresentando uma reação emocional esperada diante da situação, sem que isso signifique, necessariamente, um quadro depressivo.
O mesmo cuidado vale para os conteúdos que circulam na internet. A desatenção, um dos sintomas associados ao TDAH, também pode ocorrer em pessoas com ansiedade, depressão, problemas crônicos de sono, uso de determinadas substâncias e outras condições de saúde.
“Temos que tomar muito cuidado com esse tipo de teste, porque eles não têm sensibilidade suficiente para que você consiga realmente fazer um autodiagnóstico”, destaca Kleber.
Quais são os principais sintomas do TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades relacionadas à atenção e/ou à hiperatividade e impulsividade. Suas manifestações variam de pessoa para pessoa e podem afetar atividades cotidianas, relações sociais, estudos e trabalho.
De acordo com o psiquiatra, o transtorno pode se apresentar predominantemente com sintomas de desatenção, com sintomas de hiperatividade e impulsividade ou com uma combinação dessas características.
No perfil predominantemente desatento, podem aparecer dificuldades para manter o foco, acompanhar instruções, organizar tarefas e evitar distrações. Já a hiperatividade pode se manifestar por inquietação e dificuldade para permanecer parado em determinadas situações. A impulsividade, por sua vez, pode envolver agir ou falar sem avaliar adequadamente as consequências.
Entretanto, apresentar uma ou mais dessas características não é suficiente para confirmar o transtorno.
“Esquecer compromissos, procrastinar excessivamente, perder objetos e ter dificuldade de se concentrar são características muito comuns na história de um paciente com TDAH, principalmente quando não tratado. Mas nem sempre alguém que tem esse tipo de comportamento vai ter necessariamente TDAH”, ressalta o médico.
O especialista também chama a atenção para o ritmo de vida contemporâneo. A sobrecarga de atividades, o estresse e a privação de sono podem comprometer a concentração e a memória, produzindo dificuldades que merecem ser investigadas antes de qualquer conclusão.
O diagnóstico começa pela história do paciente
Uma característica fundamental do TDAH é que os sintomas começam na infância, mesmo quando o diagnóstico só é realizado muitos anos depois. Por isso, a investigação não deve considerar apenas as dificuldades que a pessoa apresenta atualmente, mas também seu histórico de desenvolvimento e comportamento.
Na infância e na adolescência, podem existir registros de dificuldades escolares, problemas de organização ou manifestações comportamentais. Na vida adulta, algumas pessoas chegam à avaliação depois de anos enfrentando dificuldades que não foram identificadas anteriormente.
Segundo Kleber, pessoas com sintomas mais leves ou que desenvolveram estratégias para compensar suas dificuldades podem passar muito tempo sem receber o diagnóstico. A falta de informação também pode contribuir para que determinados comportamentos sejam interpretados como preguiça ou falta de esforço.
A avaliação deve considerar ainda a presença dos sintomas em diferentes ambientes, como casa, escola e trabalho, e os prejuízos que provocam na vida do paciente.
“Os sintomas têm que aparecer já na infância. Isso não significa que a pessoa não possa receber o diagnóstico na fase adulta, mas o histórico precisa mostrar que as dificuldades já existiam anteriormente”, explica.
Ansiedade, sono e outras condições também merecem atenção
Dificuldades de concentração não são exclusivas do TDAH. Quadros de ansiedade, depressão, estresse, alterações do sono e uso de determinados medicamentos ou substâncias podem afetar a atenção e a memória.
O médico destaca especialmente a importância do sono para o funcionamento cognitivo. A privação de sono e o uso excessivo de telas, particularmente entre crianças e adolescentes, podem prejudicar a atenção e outras funções cognitivas.
Por isso, identificar a origem das dificuldades exige uma avaliação individualizada. Atribuir todos os sintomas ao TDAH sem investigar outras possibilidades pode levar a conclusões equivocadas e atrasar a identificação do problema real.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico deve ser realizado por médico habilitado, preferencialmente psiquiatra ou neurologista com experiência na avaliação do transtorno. O processo envolve consulta clínica, investigação do histórico de desenvolvimento, análise dos sintomas e avaliação dos prejuízos nas atividades cotidianas.
Conforme a necessidade, o profissional pode solicitar exames complementares para investigar outras condições e utilizar avaliações neuropsicológicas como recurso auxiliar.
O psiquiatra esclarece, porém, que a testagem neuropsicológica não estabelece o diagnóstico isoladamente. Ela contribui para a compreensão do funcionamento cognitivo e deve ser interpretada em conjunto com as demais informações clínicas.
Em crianças e adolescentes, a conversa com pais ou responsáveis e a análise de informações da escola podem ajudar a reconstruir o histórico de desenvolvimento. Em adultos, informações sobre a infância também podem ser importantes para a investigação.
Tratamento vai além da medicação
Após a confirmação do diagnóstico, o tratamento é individualizado, considerando as características, as necessidades e a intensidade dos sintomas de cada paciente. Segundo Kleber, a psicoeducação, a psicoterapia e, quando indicada, a medicação podem fazer parte da abordagem terapêutica.
A psicoeducação consiste em explicar ao paciente o que é o transtorno, como ele pode se manifestar e de que maneira interfere na rotina. Compreender essas características ajuda a pessoa a reconhecer suas dificuldades e a desenvolver estratégias para lidar com elas.
O acompanhamento psicoterapêutico também pode contribuir para a organização das atividades, o planejamento da rotina e o desenvolvimento de estratégias para reduzir a procrastinação e melhorar o funcionamento cotidiano. Esse suporte pode ser especialmente importante para pessoas que, ao longo da vida, enfrentaram dificuldades escolares, profissionais ou de relacionamento e desenvolveram baixa autoestima.
Em determinados casos, o tratamento medicamentoso também é indicado. O psiquiatra explica que os psicoestimulantes estão entre as opções de primeira linha, especialmente em quadros moderados e graves, mas a escolha do medicamento e o ajuste da dose dependem da avaliação individual, da resposta clínica e dos possíveis efeitos adversos.
A definição do tratamento deve ser feita pelo médico, sem automedicação ou uso de medicamentos prescritos para outras pessoas.
Quando procurar ajuda?
Quem percebe dificuldades persistentes de atenção, organização, controle dos impulsos ou inquietação que interferem nos estudos, no trabalho ou em outras atividades pode procurar avaliação profissional. O atendimento pode começar pela Unidade Básica de Saúde (UBS), que orientará os encaminhamentos conforme a necessidade e a organização da rede de saúde local. A avaliação especializada pode ser realizada por psiquiatra ou neurologista.
Para Kleber, o principal cuidado com testes e autoavaliações disponíveis na internet é o risco de interpretar incorretamente os próprios sintomas, confundindo o TDAH com outras condições ou atribuindo a um transtorno dificuldades que têm outra origem.
“Se você percebe que sua atenção não está boa ou está tendo dificuldades nas atividades acadêmicas, escolares ou laborais, é importante procurar um especialista para fazer uma avaliação e verificar se existe ou não a possibilidade de ter TDAH”, orienta.
As redes sociais podem despertar o interesse por informações sobre saúde mental, mas não substituem a avaliação clínica. Reconhecer uma dificuldade é um primeiro passo; compreender suas causas e buscar orientação profissional são medidas fundamentais para um cuidado adequado.
Sobre a HU Brasil
O Humap-UFMS integra a HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.






