Sanções dos EUA aprofundam crise econômica e social na Venezuela, apontam especialistas
- porRedação
- 20 de Janeiro / 2026
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Passagem de veículos está bloqueada pelo lado venezuelano na divisa com a cidade de Pacaraima (RR) | Créditos: Reprodução/CNN
Alvo recorrente de pressões políticas e ações diplomáticas dos Estados Unidos, a Venezuela enfrenta há anos os efeitos de um rigoroso conjunto de sanções econômicas impostas por Washington, conhecidas como Medidas Coercitivas Unilaterais. Especialistas e estudos internacionais indicam que essas restrições têm desempenhado papel central no agravamento da crise econômica e social do país sul-americano.
Segundo análises recentes, o uso de sanções prolongadas tornou-se uma ferramenta frequente da política externa norte-americana para pressionar governos considerados adversários. A estratégia, aplicada também a países como o Irã, busca provocar desgaste econômico, descontentamento social e, em última instância, mudanças de regime.
A economista e socióloga Juliane Furno, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), explica que o objetivo dessas medidas é sufocar experiências políticas fora da órbita de influência das grandes potências. “As sanções tentam criar um ambiente de instabilidade social que favoreça a ruptura política”, avalia.
Apesar de possuir as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela passou a ser alvo de embargos econômicos sob a justificativa de defesa dos direitos humanos, da democracia e do combate ao narcotráfico. Na prática, o bloqueio financeiro e comercial comprometeu gravemente o funcionamento da indústria petrolífera, dificultou o refinanciamento da dívida externa, congelou ativos no exterior e isolou o país do sistema financeiro internacional.
Entre as medidas mais severas estão o congelamento de reservas de ouro em bancos europeus e a perda do controle da Citgo, principal subsidiária da estatal PdVSA nos Estados Unidos, posteriormente liquidada para pagamento de credores internacionais. O governo venezuelano classificou a ação como confisco indevido de patrimônio nacional.
Impactos profundos na economia
A crise econômica venezuelana se intensificou entre 2013 e 2022, período em que o país perdeu cerca de 75% do Produto Interno Bruto (PIB). O colapso impulsionou a migração de mais de 7,5 milhões de pessoas, o equivalente a aproximadamente 20% da população.
Embora haja divergências sobre o peso relativo das falhas de gestão interna e das sanções externas, economistas reconhecem que o embargo teve papel decisivo no aprofundamento da crise. O venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver e crítico dos governos chavistas, afirma que as sanções impactaram diretamente as condições de vida da população.
“As receitas do petróleo financiam importações essenciais. Quando essas receitas são interrompidas, todo o tecido econômico entra em colapso”, explica. Segundo ele, pesquisas indicam que as sanções foram um dos principais fatores do declínio dos padrões de vida desde 2012 e influenciaram diretamente os fluxos migratórios.
O setor petrolífero, responsável por mais de 95% das exportações do país, sofreu retração acentuada após a queda dos preços internacionais em 2014 e o endurecimento das sanções a partir de 2017. Estudos apontam que apenas no primeiro ano do bloqueio financeiro, a Venezuela perdeu cerca de US$ 8,4 bilhões em divisas, valor essencial para manter importações básicas.
Inflação e recuperação recente
A perda de receitas e o isolamento financeiro contribuíram para a escalada inflacionária, culminando na hiperinflação registrada oficialmente a partir de dezembro de 2017. O cenário se agravou ainda mais em 2019, quando o país foi impedido de acessar o mercado norte-americano, seu principal comprador de petróleo.
Apesar disso, sinais de recuperação começaram a surgir a partir de 2022, quando algumas sanções foram parcialmente flexibilizadas. Dados recentes indicam crescimento econômico nos últimos anos, sugerindo uma reação gradual da economia venezuelana após o alívio de restrições.
Para especialistas, o caso da Venezuela evidencia como sanções econômicas, ainda que justificadas por discursos políticos e humanitários, podem gerar efeitos profundos e duradouros sobre a população civil, ampliando crises econômicas, sociais e migratórias.






