“Ô pacato cidadão, Te chamei a atenção”

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"Ô pacato cidadão, Te chamei a atenção"

Dizem que "quem canta seus males espanta”, mas hoje, infelizmente, o canto que ecoa é o da desilusão, o da certeza de que "acabou a utopia", como diz o refrão adaptado da canção "Pacato Cidadão" do Skank. "C'est fini la" – é o fim de um ideal, de um sonho de mundo perfeito. E com razão, o despertar para a realidade social e política do Brasil tem sido um tapa na cara diário, uma sucessão de manchetes que gritam o abismo entre quem governa e quem é governado.

Mal despertamos e já de cara a notícia: "Senado aluga 79 SUVs de luxo com teto solar por R$ 47 milhões"

Quarenta e sete milhões de reais para carros de luxo com Wi-Fi nativo e Google Assistente, mais que dobrando o custo do contrato anterior! E aí, pacato cidadão, foi para isso que você elegeu essa galera? Para bancar a frota de luxo de quem deveria servir, e não ser servido? Para que tenham tudo de bom e melhor – carros, mansões, banquetes, roupas, saúde de ponta, viagens – tudo pago com o suor do seu imposto? É isso mesmo?

A guerra do dia a dia não é contra um inimigo invisível, mas contra a constatação nua e crua de que somos os financiadores voluntários do nosso próprio desprezo.

A farra com o dinheiro público não conhece limites nem pudor. Enquanto a saúde pública agoniza, a educação patina e a infraestrutura básica se esfacela, os representantes do povo vivem em um universo paralelo de privilégios custeados por nós. O caso dos SUVs do Senado é apenas a ponta do iceberg. A internet nos joga na cara a lista de gastos que beiram o deboche:

MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) com uma licitação de R$ 15,9 milhões para comprar 750 iPhones 16 a membros, exigindo os modelos mais caros do mercado, embora a repercussão tenha levado ao seu cancelamento. A intenção, porém, ficou escancarada.

Órgãos como Senado, Câmara, STF e STJ gastando pelo menos R$ 3,7 milhões ao ano para manter salas VIPs exclusivas e "fast pass" no Aeroporto de Brasília, garantindo que a "elite de Brasília" não precise se misturar ao povo comum ou enfrentar a fila da inspeção, um luxo que nem mesmo o passageiro de primeira classe comum paga com o seu próprio dinheiro.

O Brasil tem leis em profusão, mas o que falta é a moralidade na sua aplicação e a fiscalização efetiva, que só prova a ineficácia do legislativo e do judiciário em geral. O "cidadão" só assiste, de longe, à festa dos seus eleitos e nomeados. 

Recorrer a quem? Se tudo isso é autorizado por lei, por resoluções internas, por brechas que transformam o privilégio em "direito" institucionalizado?

Uma Lei precisa ser criada urgentemente. 

Uma lei moralizadora, que não permita mais essa farra, que corte o desperdício, que extinga auxílios e mordomias que não se coadunam com a realidade da maioria da população.

Isso precisa ter fim, mas para que aconteça precisaríamos de um Político com "P" maiúsculo, capaz de romper com o sistema e criar essa lei, defendendo de fato a população em vez de se curvar à mesmice dos privilégios.

É nessa hora que o verso da canção volta a doer. Acho que, de fato, é Utopia pensar que no Brasil de hoje, conseguiríamos esse Herói. O pacato cidadão, a quem chamei a atenção, fica com a guerra todo dia – a guerra para pagar a conta do luxo alheio. 

E é por isso, e para isso, que o refrão é necessário: C'est fini la utopia, mas a guerra todo dia. Dia a dia não! Não podemos aceitar a guerra sem fim.

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS

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