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O Brasil é um país de contrastes impressionantes. De um lado, a generosidade assistencialista, que distribui bolsas e auxílios com o nobre intuito de amparar. De outro, uma máquina pesada e burocrática que, dia após dia, desconta uma fatia considerável do suor daqueles que se levantam cedo para trabalhar. A pergunta que não quer calar é: por que insistimos em remediar a pobreza com migalhas assistenciais, iao invés de atacar a raiz do problema e deixar o trabalhador ficar com mais do que ele próprio produz?
Pesquisas recentes começam a apontar um efeito colateral perverso dessa política bem-intencionada. O auxílio, vital para muitos, acaba se tornando, para outros, uma armadilha. A conta é simples: por que se esforçar em um emprego formal, que após todos os descontos renderá pouco mais que o benefício, se é possível receber um valor similar sem sair de casa? O resultado não é difícil de prever: pessoas são inadvertidamente incentivadas a deixar o mercado de trabalho, o que, em cadeia, não resolve a pobreza, mas a perpetua, aumentando cada vez mais o número daqueles que dependem do Estado.
E enquanto essa engrenagem gira, quem realmente merece e precisa de um olhar mais generoso fica à margem. Os idosos. Aqueles que já contribuíram – e muito – por este país. A ideia de que um avô ou uma avó, após uma vida de trabalho, receba apenas o suficiente para, talvez, pagar a estadia em um asilo, é de uma injustiça que dói na alma. Eles já fizeram a sua parte. Muitos nem sequer têm a opção de voltar ao mercado para complementar a renda. A justiça social deveria começar por honrar essa dívida.
O governo, é claro, oferece benefícios. Existe o amparo de um salário mínimo para o idoso de baixa renda, uma conquista importante. Mas a lista de "direitos" garantidos pelo Estatuto do Idoso soa, muitas vezes, como uma ironia cruel perante a realidade. Saúde, transporte, lazer... direitos que se dissipam na fila do SUS, no ônibus lotado e no labirinto burocrático que se tornou acessá-los. São cinco, dez, quinze benefícios no papel, desde que o idoso consiga, com saúde e paciência de sobra, navegar por todo o trâmite que o sistema impõe.
E o que sustenta esse sistema? Quem paga a conta de toda essa estrutura? O trabalhador. Aquele mesmo que é desincentivado a trabalhar. Seu salário é esquartejado por uma legião de encargos: o Imposto de Renda que corta logo na fonte, a contribuição para o INSS (que ele torce para um dia usufruir), o FGTS, as contribuições sindicais, e por aí vai. Para a empresa, a conta é ainda mais assustadora: além do salário combinado, soma-se quase outro salário em encargos – férias + 1/3, 13º, INSS patronal de 20%, FGTS, e uma série de outras taxas que fazem da contratação um investimento de alto risco.
Essa é a grande contradição brasileira. Oneramos ao extremo o ato de empregar e de ser empregado, para depois usar parte desse mesmo dinheiro arrecadado para criar programas que remediam os efeitos colaterais de termos uma economia engessada. Criamos um ciclo vicioso: o alto custo para contratar impede a geração de empregos, o que aumenta a dependência de auxílios, que por sua vez são financiados por ainda mais impostos sobre aqueles que ainda estão empregados.
A solução não é simples, mas o caminho parece óbvio. Será que não é hora de ousar mais? Em vez de criar novos programas de distribuição de renda, por que não reformular essa estrutura tributária que penaliza o trabalho? Desonerar a folha de pagamento de verdade não é um benefício para o patrão; é um alívio para a empresa respirar, crescer, contratar mais e oferecer salários melhores. É permitir que o trabalhador veja o fruto do seu esforço refletido em sua conta no final do mês, e não sugado por uma infinidade de descontos.
Honrar nossos idosos é fundamental. Mas a verdadeira homenagem a quem já construiu o país seria construir um presente melhor para quem o sustenta hoje. Um país onde trabalhar valha mais a pena que depender do Estado. Essa não é uma visão de mundo cruel, é o primeiro passo para uma nação verdadeiramente próspera e justa.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal






