“O Espelho do Candidato”


Na manhã desta segunda-feira, Brasília acordou sob o peso de novos números e velhos dilemas. A 12ª rodada da pesquisa eleitoral BTG/Nexus (registrada no TSE sob o número BR-08900/2026 e realizada entre 28 e 30 de agosto) traçou o retrato de um Brasil rachado. No primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com 39% das intenções de voto, seguido de perto pelo senador Flávio Bolsonaro, com 33%. Na terceira colocação, flutuando em um universo à parte, surge o médico e escritor Augusto Cury, alcançando 11%. Completa o quadro um pelotão pulverizado: Ronaldo Caiado com 5%, Renan Santos com 3%, Romeu Zema e Samara Martins com 1% cada, além daqueles que preferem o silêncio dos brancos, nulos e indecisos.

Se no segundo turno as simulações desenham um cenário de forte polarização — com Lula registrando 46% contra 45% de Flávio Bolsonaro —, nos bastidores da campanha de Augusto Cury o clima era de pura catarse poético-política. Após sua sabatina no Jornal Nacional, o candidato não encarava os 11% das pesquisas como uma margem modesta, mas sim como o prenúncio de uma revolução mental no eleitorado.

A grande expectativa de sua equipe para a entrevista na TV aberta acabou esbarrando, contudo, na rigidez dos fatos e do relógio. Pressionado pelos âncoras César Tralli e Renata Vasconcellos, Cury trocou a calma dos consultórios por uma postura ríspida, disparando frases que ecoaram na rede: "Sou médico, esqueceu disso?" e um categórico "Esquece o drone, Renata!".

A fala do "drone" não veio ao acaso. Entre as propostas mais polêmicas apresentadas pelo candidato, figurava a ideia de monitorar a violência contra a mulher por meio de drones e aplicativos com botão de pânico — sugestão rapidamente criticada por especialistas pela manifesta falta de profundidade prática. Não parava por aí: no afã de reformar a máquina pública, Cury sugeriu a revisão de cerca de 50 mil cargos comissionados para substituí-los por Inteligência Artificial, além de propor o envio de influenciadores digitais ao Itamaraty para "vender melhor o Brasil lá fora".

A tentativa de costurar diagnósticos complexos com soluções heterodoxas custou caro diante das câmeras. O candidato cometeu erros factuais sobre os montantes da dívida pública e a taxação das casas de apostas esportivas. A reação foi imediata: analistas da GloboNews apontaram uma profunda confusão na área econômica e um "vastíssimo desconhecimento sobre áreas basilares do Brasil", enquanto colunistas de O Globo concederam-lhe uma nota média 1.

Nas redes sociais, a audiência dividiu-se como costuma acontecer nos tempos modernos. Para os críticos, o plano de governo apresentado não passava de um "livro de autoajuda pouco útil", desprovido de preparo técnico. Para os seus apoiadores fiéis, porém, o médico fora vítima da "grosseria" e do excesso de interrupções dos entrevistadores, que o teriam impedido de concluir seus raciocínios e curar a política nacional.

Entre o sobriedade dos gráficos da BTG/Nexus e as labaredas das redes digitais, o candidato segue convicto de que a política brasileira precisa, antes de tudo, gerenciar suas próprias emoções. Resta saber se, até o dia da votação, o eleitorado preferirá receitar a lógica fria das planilhas ou a terapia das urnas.

Por Alcina Reis

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