“O Circo Não Escolhe Idade, Se queria palco, ganhou”

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Já faz um tempo que fiz um pacto solene comigo mesma: a regra de ouro do mundo moderno é não dar palco para doido. É uma questão de saúde mental, economia de bateria do celular e respeito ao próprio tempo. No entanto, o algoritmo não respeita promessas. Eis que abro o Instagram e me deparo com um vídeo na Festa do Peão de Barretos que me fez questionar se a física ou a noções de ridículo ainda funcionam neste país.

O figurança em questão já passou dos 50 anos — e não sou eu quem está acusando a certidão de nascimento, é ele mesmo quem faz questão de alardear o marco em vídeo. O problema não é a idade; envelhecer com espírito jovem é ótimo. O problema é a confusão mental entre "espírito jovem" e "surto performático em praça pública". Quando o sujeito ocupa ou almeja um cargo público, o espetáculo deixa de ser engraçado para se tornar um estudo de caso sobre a falência total do pudor.

Na arena de Barretos, no meio de poeira, chapéus e sertanejo, o que se viu foi a inefável arte do desespero por atenção. Uma necessidade visceral, quase biológica, de virar manchete. 

A criatura queria um palco? Conseguiu. 

Só esqueceu que nem todo palco exige aplausos; alguns só provocam um silêncio constrangedor e o choro contido da plateia. Faltou muito pouco para a caracterização ficar completa: uma maquiagem branca, um par de sapatos tamanho 48 e a indefectível bola vermelha no nariz.

Cargo público já teve uma coisa chamada decoro. Teve uma época em que o sujeito pensava duas vezes antes de passar um vexame desses, ponderando o peso da responsabilidade e o respeito ao cidadão. Hoje, a métrica é o engajamento a qualquer custo. Fica a dúvida se a gente deve torcer por uma cura para essas loucuras ou por um milagre que cesse essa carência crônica de holofote. Enquanto a cura não chega, nos resta orar.

 Orar e guardar o milho da pipoca, porque a palhaçada, infelizmente, continua.

Por Alcina Reis

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