Nova “Lei do Silêncio” em Campo Grande: Proteção Religiosa ou Silenciamento da Cultura Noturna?

O Grito: obra expressionista de Edvard Munch | Créditos: O Grito/Edvard Munch


A revisão da Lei do Silêncio em Campo Grande (Lei Complementar 8/1996 e suas atualizações) trouxe à tona um debate caloroso sobre a ocupação do espaço urbano e o direito ao sossego. O ponto central da polêmica é a restrição sonora em um raio de proximidade de 2.115 templos religiosos catalogados na cidade. Se por um lado a medida visa garantir a liturgia e a tranquilidade dos fiéis, por outro, gera incertezas para o setor de entretenimento.

O Privilégio Geográfico das Igrejas
A primeira grande questão que surge entre especialistas e a sociedade civil é o critério para a escolha das igrejas como "marco zero" da fiscalização. Por que a base da lei se concentra de forma tão ampla no entorno dos templos, em vez de focar exclusivamente em zonas sensíveis como hospitais e escolas?

Com mais de dois mil pontos espalhados por praticamente todos os bairros, a aplicação de limites rígidos (que podem chegar a meros 45 decibéis em alguns horários e zonas) cria uma malha de restrição que atinge diretamente o comércio local.

Vida Noturna e a Profissão de Músico sob Ameaça
Pesquisas em sites oficiais e dados de entidades como a Abrasel-MS (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) revelam um cenário preocupante. A aplicação rigorosa desses limites pode inviabilizar a música ao vivo, o "carro-chefe" de centenas de estabelecimentos noturnos na Capital.

Impacto Econômico: Bares e restaurantes já relatam dificuldades em manter as portas abertas com limites de som que equivalem ao volume de uma conversa baixa em um escritório.

A Profissão do Músico: Se o estabelecimento não pode oferecer som, o músico perde seu posto de trabalho. Artistas locais questionam se essa decisão não ignora a cultura como fonte de renda e desenvolvimento econômico, empurrando a categoria para a informalidade ou o desemprego.

Regra para Todos: O Som que Vem do Púlpito
Um ponto que não pode ser ignorado é que a lei, por definição, deve ser isonômica. Embora a restrição proteja o entorno das igrejas contra ruídos externos, as próprias instituições religiosas também estão sujeitas às normas.

Muitas congregações utilizam sistemas de som potentes e realizam cultos que, frequentemente, ultrapassam os limites permitidos, gerando reclamações de vizinhos. A fiscalização terá o mesmo rigor com o som dos templos que terá com o som dos bares? Se o objetivo é o "bem-estar público", a regra deve valer para o tambor, para a guitarra e também para as caixas de som das igrejas.

O Que Dizem as Autoridades
Enquanto a Câmara Municipal e a Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano) buscam um "meio-termo" através de audiências públicas, o setor cultural segue em alerta. A revisão da Lei do Silêncio não é apenas uma questão de decibéis, mas de decidir que tipo de cidade Campo Grande quer ser: uma capital que respira cultura e vida noturna, ou uma cidade que silencia suas vozes em prol de uma única vertente de ocupação urbana.

Por Alcina Reis

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