Empresa de MS aposta em radioterapia superficial para otimizar atendimento oncológico

| Créditos: Divulgação


Uma indústria médica sediada em Campo Grande atua na produção e exportação de equipamentos de radioterapia de ortovoltagem (superficial) voltados para a América Latina. Trata-se da única unidade fabril da modalidade na região e a sexta no mundo a deter o know-how de fabricação desse perfil de maquinário.

A proposta da empresa, denominada Safe Life e dirigida pelo médico rádio-oncologista Leonardo Alves, fundamenta-se no conceito de "hierarquia da tecnologia" na medicina. Segundo os responsáveis pela iniciativa, o ecossistema de saúde brasileiro tende a direcionar a maioria dos diagnósticos de câncer diretamente aos aceleradores lineares — aparelhos de alta energia que custam cerca de US$ 1,5 milhão e exigem a construção de estruturas físicas blindadas (bunkers) avaliadas em até R$ 4 milhões.

Diferenças técnicas e foco no câncer de pele

Enquanto os aceleradores lineares emitem radiação na casa de milhões de volts para atingir órgãos e tecidos profundos, os equipamentos superficiais da linha fabricada no Centro-Oeste operam na faixa dos 1.000 volts. Essa voltagem é voltada para lesões externas e tumores superficiais, como o câncer de pele — neoplasia de maior incidência na população.

Por se tratar de um procedimento ambulatorial, a aplicação não demanda anestesia nem a infraestrutura de um centro cirúrgico tradicional. A calibragem e a segurança do feixe de radiação passam por um processo diário de verificação antes do início dos atendimentos, utilizando simulações computadas para identificar eventuais variações milimétricas na distribuição da dose.

O modelo atende tanto a rede pública pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto centros de referência privada na área oncológica.

Impacto na capacidade de atendimento e custos

A estimativa técnica da empresa aponta que cerca de 15% dos casos atualmente alocados em aceleradores lineares poderiam ser tratados via radioterapia superficial. Com essa redistribuição, a capacidade operacional dos equipamentos de alta energia em hospitais poderia ser ampliada em até 30%, liberando vagas para pacientes com tumores de maior complexidade, como os de pulmão e mama.

A otimização visa auxiliar no cumprimento do prazo máximo legal de 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento oncológico no país — meta atualmente alcançada em cerca de 32% das ocorrências nacionais.

No aspecto financeiro, o investimento total para a instalação do sistema de ortovoltagem atinge aproximadamente R$ 2,1 milhões (sendo R$ 2 milhões correspondentes ao equipamento e R$ 100 mil para a adequação de sala blindada simplificada), valor inferior ao conjunto de acelerador linear e bunker tradicional, que supera a marca de R$ 10 milhões.

Inovações desenvolvidas e capacidade produtiva

Além do maquinário para superfícies corporais externas, a fábrica desenvolveu o dispositivo Lumina SRT, voltado para a radioterapia intrarretal. A técnica busca tratar tumores de reto de forma interna e superficial, reduzindo a necessidade de intervenções cirúrgicas invasivas e colostomias definitivas em até 90% dos casos elegíveis.

A operação fabril em Mato Grosso do Sul foi estruturada por meio de transferência tecnológica com uma fabricante do Reino Unido, contando atualmente com 54% de insumos e componentes de procedência nacional. A planta opera por demanda, com capacidade de fabricação entre 10 e 12 unidades por ano, podendo chegar a 18 unidades anuais.

A empresa projeta expandir suas instalações para uma nova área de 1,5 mil m² e já realiza negociações para exportar seus aparelhos a outros países da América do Sul, além de estimar a inserção de 150 a 200 equipamentos no mercado brasileiro.

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