“Campo Grande aos 127: crescer sem perder a alma”
- porAlcina Reis
- 26 de Agosto / 2026
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Há cidades que simplesmente aumentam de tamanho. E há cidades que crescem carregando consigo uma história, uma identidade e a responsabilidade de decidir o que querem ser quando ficarem grandes.
Campo Grande chega aos 127 anos em uma dessas encruzilhadas.
A antiga cidade que nasceu entre caminhos, córregos e o movimento de quem chegava em busca de oportunidades transformou-se em uma Capital com quase 963 mil habitantes, segundo a estimativa do IBGE para 2025. No Censo de 2022, eram cerca de 898 mil moradores.
É uma transformação impressionante. O próprio perfil socioeconômico elaborado pelo município mostra que a população cresceu mais de seis vezes entre 1970 e 2022. Mas também revela uma mudança importante: o ritmo desse crescimento vem desacelerando.
Talvez esteja aí uma das perguntas mais importantes para o futuro da Cidade Morena: não se trata apenas de saber quantas pessoas Campo Grande terá, mas que cidade será capaz de oferecer a elas.
Porque crescer é relativamente fácil. Difícil é crescer bem.
Campo Grande ainda enfrenta problemas antigos, daqueles que não desaparecem simplesmente porque novos prédios surgem. Pavimentação, drenagem, mobilidade, habitação, planejamento urbano e desigualdade entre regiões continuam entre os desafios de uma cidade que se espalhou por uma área de mais de 8 mil quilômetros quadrados. Em 2026, por exemplo, a própria Prefeitura mantém grandes investimentos em pavimentação e drenagem, inclusive diante dos impactos provocados por chuvas intensas e alagamentos.
Mas uma cidade não pode olhar somente para o buraco da rua de hoje. Precisa enxergar o horizonte de amanhã.
E há sinais de que Campo Grande tem condições de dar esse salto.
A economia municipal vem apresentando novas possibilidades, com investimentos privados anunciados em setores como tecnologia, energia solar, indústria, agronegócio e combustíveis sustentáveis. O turismo também amplia sua importância, enquanto iniciativas ligadas à inovação procuram transformar a Capital em um polo regional de conhecimento e tecnologia.
Há ainda uma característica que Campo Grande não deveria jamais perder: o verde.
Reconhecida internacionalmente pela gestão da arborização urbana, a Capital recebeu em 2026, pela sétima vez consecutiva, o título de Cidade Árvore do Mundo. Em tempos de temperaturas extremas, mudanças climáticas e cidades cada vez mais impermeabilizadas pelo concreto, árvores deixam de ser apenas paisagem. Tornam-se infraestrutura, saúde e qualidade de vida.
E talvez seja justamente essa combinação que possa definir o próximo capítulo da cidade: tecnologia sem perder a natureza; desenvolvimento sem abandonar as pessoas; crescimento econômico acompanhado de qualidade de vida.
Campo Grande já demonstrou que pode crescer. Agora precisa provar que consegue amadurecer.
Pode ser uma capital mais conectada com o restante do país e com o mundo, especialmente diante das novas oportunidades logísticas e econômicas que se abrem para Mato Grosso do Sul. Pode ser referência em sustentabilidade, inovação, serviços, turismo e qualidade de vida. Pode transformar universidades, empresas, parques tecnológicos e o próprio patrimônio cultural em motores de uma economia mais sofisticada.
Mas nada disso acontecerá apenas com grandes obras ou números grandiosos.
O verdadeiro tamanho de uma cidade não se mede pela quantidade de quilômetros de asfalto, pela altura dos edifícios ou pelo volume de investimentos. Mede-se pela distância entre aquilo que ela promete e aquilo que entrega.
Uma Campo Grande grande de verdade será aquela em que o bairro distante tenha a mesma dignidade do centro; em que o trabalhador consiga chegar ao emprego sem perder horas no trânsito; em que uma criança tenha escola, praça, esporte e cultura por perto; em que envelhecer seja acompanhado de respeito; em que empreender seja possível sem burocracia excessiva; e em que desenvolvimento não signifique destruir aquilo que torna a cidade especial.
Aos 127 anos, Campo Grande não precisa deixar de ser a cidade tranquila, arborizada e acolhedora que aprendeu a ser.
Precisa apenas descobrir como ser tudo isso em uma escala maior.
Porque o futuro da Cidade Morena não está escrito.
Ele está sendo construído agora — nas ruas, nos bairros, nas escolas, nas empresas, nas universidades, nas praças e, principalmente, nas escolhas de quem governa e de quem vive aqui.
Até onde Campo Grande pode chegar?
Talvez a resposta não esteja em um número.
Talvez esteja na capacidade de continuar crescendo sem perder a alma.
E se conseguir fazer isso, a menina que nasceu há 127 anos no coração de Mato Grosso do Sul poderá se transformar em uma das grandes capitais brasileiras do futuro — não apenas porque cresceu, mas porque aprendeu a crescer para todos.
Feliz aniversário, Campo Grande.
Que os próximos 127 anos sejam maiores que os primeiros — mas que a cidade continue reconhecível no abraço, na sombra das árvores, no sotaque e no orgulho de quem diz, sem precisar explicar muito:
“Eu sou campo-grandense e me orgulho.”
Por Alcina Reis






