“Cuidado com o andor que o santo é de barro”

| Créditos: Foto: Divulgação/CMCG


Em Campo Grande, a recente movimentação na Câmara Municipal serve como um espelho cristalino da insaciável sede de poder que muitas vezes permeia a política. Mal se passaram seis meses desde a posse do atual presidente da Câmara, Papy (PSDB), e a discussão já não é sobre os primeiros frutos de sua gestão, mas sim sobre sua perpetuação no cargo. A antecipação da eleição da mesa diretora em 18 meses, antes mesmo do recesso, é um sintoma alarmante de uma lógica que prioriza a manutenção do status quo em detrimento da efetividade da governança.

O poder, como já se sabe, não sacia; instiga, vicia, embriaga. Quanto mais se tem, mais se quer. "Não vá com muita sede ao pote!", diz o adágio popular, mas parece que a lição não ecoa nos corredores do legislativo municipal.

É um ciclo vicioso: o cargo recém-conquistado já não é suficiente. Os planos para os próximos mandatos, as articulações para a reeleição, tudo isso se sobrepõe à urgência de entregar resultados à população. Papy, ao ser questionado sobre a antecipação, apela para a tradição, lembrando que antecessores também cumpriram mandatos de quatro anos. No entanto, a tradição que realmente importa para o cidadão é a do cumprimento de promessas e da transformação da realidade.

A cena política se desenrola com a bancada do PSDB, a maior na Casa, já declarando apoio à reeleição, consolidando a base para essa manobra. A ascensão de Papy à presidência, impulsionada pelo antigo presidente, Carlão (PSB), agora primeiro secretário, demonstra a teia de alianças e acordos que visam a perpetuação de um grupo no poder. O breve ensaio de uma candidatura do PP, rapidamente frustrado pela articulação antecipada da dupla, é a prova da eficiência dessa máquina.

Enquanto os vereadores tecem suas estratégias para garantir a continuidade em seus postos, a população de Campo Grande, em sua maioria, segue esperando a contrapartida. De que adianta criar projetos ambiciosos de perpetuação em cargos, antecipar eleições e consolidar alianças se o principal objetivo – servir ao pote – é deixado em segundo plano?

Cuidado com o andor que o santo é de barro: a cadeira de presidente da Câmara não é um trono vitalício, mas sim um posto de responsabilidade temporária. A verdadeira medida do sucesso de um mandato não reside na sua extensão, mas na sua capacidade de impactar positivamente a vida dos cidadãos. A sede insaciável por mais poder, por mais tempo no cargo, só faz sentido se, em contrapartida, houver uma demonstração inequívoca do "para que veio". Caso contrário, todo o esforço em articulações e antecipações será, no final das contas, um exercício de futilidade para a cidade.

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS

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