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Há momentos em que a indignação deixa de ser apenas uma reação diante das notícias e passa a ser uma pergunta que incomoda, assusta e, sobretudo, precisa ser feita.
Afinal, em quem o brasileiro pode confiar quando as suspeitas de corrupção e de relações indevidas parecem alcançar diferentes esferas do poder?
O caso envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro é mais um capítulo de uma história que parece não ter fim.
A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o banco. O Supremo Tribunal Federal determinou novas diligências, prisões e medidas cautelares ao longo das diferentes fases da investigação.
Mas talvez o que mais chame a atenção seja aquilo que ainda pode vir à tona a partir dos celulares e de outros materiais apreendidos durante as investigações.
O STF determinou a abertura de um inquérito para apurar o vazamento de mensagens obtidas dos aparelhos de Vorcaro. Ou seja, existe material que está sendo investigado e que, por sua própria natureza, pode ajudar a esclarecer relações, conversas e possíveis conexões entre personagens dos mundos empresarial, político e institucional.
E é justamente aí que a história começa a ficar ainda mais desconfortável.
Em maio, uma nova fase da operação passou a investigar, segundo o STF, suspeitas de atuação do senador Ciro Nogueira em benefício de interesses privados ligados a Daniel Vorcaro, com apuração sobre eventual recebimento de vantagens indevidas.
Em junho, outra fase autorizada pelo Supremo passou a investigar possíveis relações entre Vorcaro, gestores do Banco Master e o senador Jaques Wagner. A suspeita apresentada pela investigação envolve possível atuação parlamentar em favor de interesses da instituição em troca de vantagens indevidas. São suspeitas sob investigação, não condenações.
E é justamente esse cuidado que precisamos ter.
Ninguém deve ser condenado pela manchete.
Ninguém deve ser considerado culpado apenas porque seu nome apareceu em uma investigação.
Mas também não podemos aceitar que investigações sejam escondidas, engavetadas ou tratadas como assunto menor quando envolvem pessoas poderosas.
A sociedade tem o direito de saber.
Tem direito de saber para onde foi o dinheiro.
Tem direito de saber quem conversou com quem.
Tem direito de saber quem tentou influenciar quem.
Tem direito de saber se houve corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro ou qualquer outro crime.
E, principalmente, tem direito de saber se as instituições que deveriam fiscalizar, investigar e julgar estão funcionando de maneira independente.
Porque chegamos a um ponto delicado.
Quando o setor privado é investigado, queremos a Polícia Federal.
Quando políticos são investigados, queremos o Ministério Público e a Justiça.
Quando servidores públicos são suspeitos de irregularidades, queremos investigação e punição.
Mas quando surgem questionamentos envolvendo as próprias instituições responsáveis por fiscalizar e julgar?
Quem fiscaliza os fiscais?
Quem julga os julgadores?
Quem investiga aqueles que deveriam investigar?
Essa não é uma pergunta contra o Judiciário.
É uma pergunta a favor da independência do Judiciário.
Uma democracia saudável não pode ter instituições acima de qualquer questionamento. Pelo contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a transparência e maior deve ser a responsabilidade perante a sociedade.
O cidadão comum não pode olhar para Brasília e enxergar apenas uma disputa permanente entre grupos de poder.
Não pode ter a sensação de que empresários procuram políticos, políticos procuram autoridades, autoridades procuram influência e, no final, ninguém sabe exatamente onde termina o interesse público e começa o interesse particular.
E quando essa sensação se instala, algo muito grave acontece:
a população perde a confiança.
Perde a confiança na política.
Perde a confiança nas instituições.
Perde a confiança na Justiça.
E uma democracia sem confiança é uma democracia permanentemente doente.
Por isso, que as investigações do Banco Master avancem.
Que os celulares sejam periciados.
Que as mensagens sejam analisadas.
Que as gravações, documentos e demais elementos de prova sejam submetidos ao devido processo legal.
Que inocentes sejam preservados.
E que culpados, se houver, sejam responsabilizados — independentemente do cargo, do partido, do sobrenome ou do tamanho da conta bancária.
Não queremos uma Justiça para a direita.
Não queremos uma Justiça para a esquerda.
Não queremos uma Justiça para banqueiros, empresários ou políticos.
Queremos Justiça para todos.
E talvez seja justamente por isso que chegou a hora de o Brasil discutir, com seriedade e sem paixões partidárias, como garantir uma independência ainda maior das instituições responsáveis por julgar os cidadãos e controlar os próprios poderes.
Porque uma coisa é indicação política.
Outra coisa é independência institucional.
E quando o cidadão começa a perguntar se aqueles que chegam aos postos mais altos do Judiciário deveriam depender de escolhas políticas, talvez seja o momento de abrir esse debate.
Será que já não passou da hora de termos um Judiciário verdadeiramente independente, com seus integrantes chegando aos mais altos cargos por concurso, mérito, preparo e trajetória na magistratura, e não por indicações políticas?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que o Brasil precisa ter coragem de fazer.
E talvez seja também uma das mais necessárias.
Porque, no fim das contas, resta a pergunta que nenhum cidadão deveria ser obrigado a fazer:
Se até quem deveria fazer Justiça está sob questionamentos, a quem nós, cidadãos, deveremos recorrer?
Por Alcina Reis






