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A frase “artista não dá voto, mas tira”, historicamente atribuída a Leonel Brizola, deveria estar emoldurada na parede de muito gabinete político. Não porque artistas sejam donos dos votos, mas porque a cultura tem força, voz e capacidade de mobilização. E quem despreza esse universo pode descobrir, na hora menos conveniente, que ignorar pessoas também tem consequências.
Tem político que passa quatro anos sem lembrar que existem músicos, atores, artistas plásticos, escritores, produtores culturais, artesãos, profissionais do audiovisual, dançarinos e tantos outros que movimentam a economia criativa. Não conhece suas dificuldades, não acompanha suas demandas e, muitas vezes, nem sabe como sobrevivem profissionalmente. Mas basta chegar o período eleitoral para surgir aquele interesse repentino. De repente, todo mundo vira admirador da cultura! É abraço para cá, fotografia para lá e promessa para todos os lados. Um verdadeiro espetáculo, só que sem garantia de continuidade depois que as urnas fecham.
E quando o governante decide cortar o orçamento da cultura, fechar o teatro municipal para transformá-lo em depósito de documentos velhos ou sucatear os editais locais, acredita que está demonstrando responsabilidade fiscal. Que economia maravilhosa!
Só se esquece de um pequeno detalhe: está mexendo com uma turma que tem criatividade, microfone, palco e capacidade de transformar indignação em assunto para muita gente.
Artista esquecido não fica necessariamente chorando pelos cantos. Ele compõe, interpreta, escreve, faz meme, cria paródia e até inventa marchinha de Carnaval para ironizar o político. E, dependendo da situação, ainda consegue arrancar mais gargalhadas do público do que o humorista contratado para a festa.
Imagine a cena: cinco mil pessoas diante de um palco, o artista prestes a cantar o maior sucesso da noite. Ele pega o microfone e dispara:
— Aê, galera, o show está bonito, né? Pena que o político cortou o som meia hora mais cedo porque parece achar que cultura é vagabundagem!
Pronto! Uma decisão administrativa vira assunto, a plateia reage e o comentário começa a circular pelas redes sociais. Em poucos segundos, uma crítica bem colocada pode alcançar um público que discursos políticos inteiros não conseguiram atingir.
É claro que nem todo artista vai fazer isso, nem toda crítica terá a mesma repercussão. Mas subestimar a capacidade de comunicação da classe artística é um erro que pode custar caro à imagem de qualquer administração.
O mais curioso é que muitos políticos parecem não perceber a oportunidade que desperdiçam. Artistas circulam, conversam, formam opiniões, mobilizam comunidades e alcançam públicos diversos. Isso não significa que todos pensem igual ou votem em bloco. A classe artística tem diferentes posições, convicções e interesses. Mas compartilha uma realidade: precisa de condições dignas para produzir e exercer sua profissão.
E aqui está o ponto que alguns governantes ainda não entenderam: não basta procurar os artistas quando se precisa de palanque, trilha sonora para campanha ou fotografia para as redes sociais. É preciso respeitar o setor quando não há eleição à vista, quando o palco está vazio e quando os profissionais estão tentando conseguir recursos para manter seus projetos de pé.
Cultura não vive de aplausos políticos. Vive de políticas públicas, oportunidades, espaços adequados, editais transparentes, remuneração digna e continuidade. O artista não quer ser lembrado apenas quando há festa na praça. Quer trabalhar, produzir, ensinar, expor, apresentar e sobreviver da própria profissão.
Enquanto alguns políticos tratam a cultura como assunto secundário, deixam de construir uma relação de confiança com uma parcela da sociedade que tem voz e sabe cobrar compromissos. Fidelidade não se compra com tapinha nas costas, promessa de ocasião ou discurso ensaiado na véspera da eleição. Ela pode nascer do respeito demonstrado ao longo do tempo e de ações concretas.
Depois, não adianta fazer cara de espanto quando o apoio esperado não aparece. O artista se lembra do edital que não saiu, do teatro que fechou, do projeto que perdeu financiamento e do evento prejudicado pela falta de estrutura. E a comunidade também percebe quando a cultura é valorizada apenas no discurso.
O asfalto pode até estar lá, ainda que com alguns buracos, mas a peça que precisou fechar as portas continua fazendo falta. A música que deixou de ser apresentada não desaparece da memória de quem esperava ouvi-la. E o profissional que passou meses tentando viabilizar seu trabalho sabe muito bem a diferença entre um governante que promete e outro que efetivamente investe.
Leonel Brizola deixou uma frase que atravessou gerações. A máxima atribuída a ele serve de alerta para quem acredita que artistas não têm relevância no debate público. Eles não são donos dos votos, mas podem usar sua voz para questionar decisões, denunciar problemas, defender causas e ampliar discussões.
E não se trata de transformar a cultura em instrumento de fidelização eleitoral. Trata-se de reconhecer que artistas são cidadãos, trabalhadores e formadores de opinião, merecedores de respeito independentemente de suas escolhas políticas.
Pelo contrário, poder contar com o apoio de representantes da cultura deveria ser visto pelos governantes como uma verdadeira chancela de confiança perante o eleitor. Afinal, quando artistas reconhecem o compromisso de uma administração com a cultura, esse reconhecimento pode fortalecer a credibilidade de quem governa. Não se trata de comprar apoio ou esperar unanimidade, mas de compreender que o respeito aos profissionais da arte e o investimento no setor ajudam a construir uma relação positiva com a sociedade. É uma oportunidade de demonstrar, na prática, que existe compromisso com a educação, a identidade, a criatividade e a liberdade de expressão.
A pergunta que fica é: quantos governantes ainda vão precisar ignorar a cultura para entender que esse segmento não pode ser tratado como figurante?
Resolvi lembrar o pessoal da política de tudo isso por uma única razão: os artistas jamais podem ser esquecidos, desvalorizados ou sucateados simplesmente por terem conhecimento, opinião e voz própria.
Ter pensamento crítico não deveria ser motivo para afastamento, perseguição ou abandono. Uma sociedade democrática precisa de pessoas capazes de se expressar livremente, inclusive quando suas opiniões incomodam quem está no poder.
Os artistas preservam nossa história, mantêm vivas nossas tradições, provocam reflexões, denunciam injustiças e nos fazem rir até quando a realidade parece não ter graça nenhuma. Levam emoção aos palcos, às ruas, às telas e aos espaços onde a vida acontece. A cultura aproxima pessoas, fortalece identidades e ajuda a construir a memória de um povo.
Eles são a alegria da nação!
Aos políticos que ainda não entenderam o recado, fica o lembrete: o palco pode ser temporário, os mandatos têm prazo para terminar e as campanhas passam. Mas a arte permanece, e a voz de quem tem algo a dizer pode ecoar por muito tempo.
Respeitar a cultura não deveria ser uma estratégia eleitoral, mas um compromisso permanente com a sociedade.
Porque o artista merece respeito antes, durante e depois das eleições. Afinal, a política passa, os mandatos terminam, mas a arte permanece. E quem insiste em deixar a cultura no esquecimento pode acabar descobrindo que, quando chega a hora de prestar contas, nem todo silêncio significa aplauso!
Por Alcina Reis






