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Tem gente que parece ter um talento raro: o de perder a chance de ficar calado. Zeca do PT, por exemplo, tem um histórico extenso na política sul-mato-grossense, mas, vez ou outra, parece que confunde o microfone da Assembleia Legislativa com um confessionário ou, pior, com uma roda de conversa sem filtro em rede social.
Desta vez, o deputado resolveu ironizar a recuperação de Jair Bolsonaro após uma cirurgia, e, de quebra, pôs em dúvida a facada que o ex-presidente levou em 2018. Resultado? A Câmara Municipal de Campo Grande não perdoou e aprovou, com maioria folgada, uma moção de repúdio. Até vereadores que já engoliram muito sapo vindo de Brasília acharam que Zeca passou do ponto. Alguns tentaram suavizar, lembrando os exageros verbais do próprio Bolsonaro sobre Dilma Rousseff, mas, no fim, a maioria achou que a fala do petista não dava pra passar pano.
Talvez Zeca tenha andado relendo a entrevista do teólogo Leonardo Boff, aquela de 28 de julho de 2020, quando o pensador afirmou, sem rodeios, que Bolsonaro tem as “características do Anticristo”. É possível. Boff tem uma retórica poderosa, dessas que emocionam e inflamam em igual medida. Mas há uma diferença entre ser teólogo emérito da Uerj e deputado estadual em Mato Grosso do Sul. Um fala com metáforas espirituais, o outro deveria falar com responsabilidade política.
O silêncio, dizem, vale ouro. A palavra, apenas prata. Mas Zeca, infelizmente, segue preferindo os trocados. Num momento em que a população está atolada até o pescoço com problemas reais — inflação, saúde precária, insegurança —, a verborragia desnecessária vira munição para os adversários e vergonha para os aliados.
Às vezes, o melhor discurso é o que não se faz. Mas há quem ainda não aprendeu que o microfone não é um brinquedo — é um espelho, que devolve à sociedade o reflexo do que se pensa, mesmo que mal pensado.
Quem sabe na próxima sessão Zeca decida por uma abordagem mais zen. Afinal, como já dizia o sábio: “Melhor calar e parecer tolo do que abrir a boca e confirmar todas as suspeitas”.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal






