
Hoje, acompanhei o advogado Tiago Botelho respondendo com fúria ao apresentador Tatá Marques nas redes sociais. O motivo?
A crítica do comunicador ao programa do governo que distribui gás para famílias de baixa renda. Marques soltou os termos de sempre: "eleitoreiro" e "curral eleitoral". Botelho veio com o que há de mais comum nas discussões online: atacou o caráter do outro, chamando-o de "politicamente desinformado, humanamente medíocre e profissionalmente sem ética".
E me vi aqui, mais uma vez, testemunhando a superficialidade de um debate que não debate nada!
Concordo que o apresentador perdeu uma boa chance de ficar quieto, reduzindo uma questão complexa a um chavão raso. Já o superintendente, com toda sua autoridade, preferiu o ataque pessoal em vez de argumentos sólidos.
No meio desse tiroteio, fiquei me perguntando: e se os dois estiverem completamente errados?
E agora vou cutucar a ferida: "Sim Botelho é um assistencialismo..." – um tropeço verbal que, mesmo sem querer, é revelador. Confesso que nós todos somos, de alguma forma, parte de um sistema assistencialista, mas temos uma aversão seletiva a certos tipos de assistência.
Criticamos a esmola, mas fechamos os olhos para o confisco.
Para mim, a questão nunca foi se devemos ajudar, mas como e de que forma. Sempre me perguntei: por que dar uma cesta básica, um auxílio específico, e não permitir que cada pessoa, mesmo com renda menor, escolha o que consumir? Dar o peixe é paliativo. Ensinar a pescar é clichê ultrapassado. Que tal, então, fazer diferente de tudo que está aí?
Jogo na mesa o que considero a verdadeira bomba:
aquela lista interminável de impostos que sangram o salário do trabalhador. INSS, IRPF, FGTS, INSS Patronal... E isso antes de pagarmos luz, água, gás e pão, todos mais caros pela tributação embutida.
Diante dessa sangria, vejo um vale-gás como um curativo em uma hemorragia arterial. É humanitário? Sem dúvida. Mas me pergunto: é digno?
O assistencialismo do vale é visível, palpável, e vira manchete. Já a assistência permanente através de uma isenção tributária para os mais pobres é invisível, complexa e não gera likes. Não rende foto de político entregando botijão. Dá dignidade, mas não dá voto. Empodera, mas não cria dependência.
Por isso, a pergunta que fica e que gostaria de dirigir a ambos os lados da briga, é: por que preferimos o espetáculo do auxílio temporário à reforma profunda e entediante do sistema tributário?
Botelho, não seria isso – desonerar de verdade quem mais precisa – a maneira de tirar o Brasil da pobreza com dignidade? Sem precisar que pessoas fiquem reféns da política do "um entra e dá, outro entra e tira"?
Enquanto não respondermos isso, vejo que seguiremos aplaudindo respostas inflamadas e discutindo a cor do curativo, enquanto o paciente continua sangrando.
Por Alcina Reis







