Temporada das baleias-jubarte registra queda no número de filhotes e acende alerta ambiental
- porRedação
- 02 de Novembro / 2026
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| Créditos: Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
A temporada de reprodução das baleias-jubarte no litoral brasileiro terminou com um número de filhotes bem abaixo da média histórica. Pesquisadores apontam que as mudanças climáticas e o possível impacto sobre a oferta de alimentos na Antártida podem estar relacionados à redução dos nascimentos.
Todos os anos, esses animais percorrem aproximadamente 4 mil quilômetros, saindo das regiões geladas da Antártida em direção ao arquipélago de Abrolhos, no litoral sul da Bahia, onde se reproduzem e dão à luz.
De acordo com o monitoramento do Instituto Baleia Jubarte, até setembro deste ano os filhotes representavam apenas 3,35% dos animais observados. O índice está distante da média histórica de 9,98%, calculada desde 2014. Em 2025, a proporção havia chegado a 10,7%, enquanto 2024 registrou o maior percentual da série, com 16,69%.
Uma das explicações investigadas é a diminuição da disponibilidade de krill, pequenos crustáceos que constituem a principal fonte de alimentação das jubartes. O aquecimento global pode interferir na oferta desses organismos e comprometer as reservas de gordura necessárias para a migração, reprodução e amamentação.
Segundo o diretor de pesquisas do instituto, Milton Marcondes, a falta de alimento pode prejudicar a fertilidade das fêmeas e aumentar o risco de perda dos filhotes durante a gestação.
Os levantamentos científicos realizados em 11 expedições ao arquipélago de Abrolhos contabilizaram 431 baleias, das quais 42 eram filhotes. O resultado também ficou abaixo do esperado.
A redução dos nascimentos contribuiu ainda para encurtar a temporada de observação. Normalmente, as jubartes chegam ao Brasil em junho, permanecem em maior número entre julho e outubro e começam a retornar à Antártida até novembro. Com menos filhotes, as fêmeas precisam permanecer por menos tempo nas águas brasileiras.
Outro aspecto observado pelos pesquisadores envolve os encalhes. Até o momento, foram registrados 59 casos, contra 78 no mesmo período do ano anterior. Entretanto, houve maior presença de animais jovens entre as ocorrências no Sul do país, especialmente em Santa Catarina e São Paulo.
Os pesquisadores alertam que a redução de alimento pode produzir consequências acumuladas, com reflexos sobre a sobrevivência dos animais nas próximas temporadas.
Turismo de observação fortalece a preservação
Apesar dos desafios ambientais, o turismo de observação tem se consolidado como uma importante alternativa para proteger as baleias-jubarte e movimentar a economia das cidades litorâneas.
Em Caravelas, no sul da Bahia, o crescimento da atividade turística está diretamente relacionado à recuperação da população desses animais. A região de Abrolhos concentra aproximadamente 90% das jubartes que chegam ao Brasil e se tornou um dos principais destinos para quem deseja acompanhar a espécie em seu habitat natural.
O aumento do fluxo de visitantes também abriu oportunidades de trabalho para moradores que antes dependiam principalmente da pesca. Operadores de embarcações, marinheiros e profissionais do turismo passaram a encontrar na observação das baleias uma fonte de renda, especialmente durante os meses de inverno.
Para Eduardo Camargo, diretor-executivo do Instituto Baleia Jubarte, a atividade representa uma maneira de conciliar desenvolvimento econômico e conservação ambiental, desde que seja realizada com responsabilidade e respeito às normas de proteção.
As regras estabelecem distância mínima de 100 metros entre as embarcações e os animais. O tempo de aproximação é limitado a 60 minutos, reduzido para 30 minutos quando há fêmeas acompanhadas de filhotes. Também é permitido que apenas dois barcos permaneçam próximos ao mesmo grupo de baleias.
Perseguir, cercar, tocar ou capturar os animais é proibido. O objetivo é evitar interferências no comportamento e no deslocamento dos cetáceos.
O instituto também desenvolve ações de capacitação com trabalhadores do setor turístico e parcerias com municípios para incentivar práticas adequadas de observação.
Instituto Baleia Jubarte completa 30 anos de atuação
A trajetória de recuperação da espécie também está ligada ao trabalho do Instituto Baleia Jubarte, que completa três décadas de existência formal em 2026.
Criado inicialmente como projeto de pesquisa em 1988, o trabalho ganhou estrutura institucional em 1996, com a participação dos pesquisadores Enrico Marcovaldi e Márcia Engel e apoio financeiro da Petrobras.
Na década de 1990, a população brasileira de baleias-jubarte era estimada entre 1,5 mil e 2 mil indivíduos. O último levantamento populacional, realizado em 2022, identificou mais de 35 mil animais, demonstrando uma expressiva recuperação da espécie.
A caça comercial, proibida no Brasil em 1987, havia levado as jubartes a uma situação crítica. Em 2014, a espécie deixou a lista brasileira de animais ameaçados de extinção.
Ao longo dos anos, o instituto ampliou suas pesquisas, identificou milhares de indivíduos por meio de fotografias das caudas e desenvolveu estudos sobre migração, reprodução, alimentação e comportamento.
Mais de 700 estudantes universitários já participaram de programas de estágio da instituição. O trabalho também resultou em pesquisas de mestrado e doutorado e na publicação de mais de 130 artigos científicos.
Atualmente, entre as principais preocupações estão os efeitos das mudanças climáticas, a poluição por plásticos e a redução da disponibilidade de alimentos nos oceanos.
O diretor-executivo Eduardo Camargo destaca que o desafio é conciliar as atividades humanas com a proteção das baleias e de outros cetáceos. Já o diretor de pesquisas Milton Marcondes ressalta a importância desses animais para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos, inclusive pela circulação de nutrientes que favorece outras espécies.
O trabalho científico, a proteção dos ambientes de reprodução e o turismo responsável são considerados fundamentais para manter os resultados alcançados e garantir a sobrevivência das jubartes nas próximas gerações.
Atenção ambiental: mesmo com a recuperação da população brasileira nas últimas décadas, a redução de filhotes registrada em 2026 reforça a necessidade de monitoramento científico e de medidas permanentes de conservação
Com Agência Brasil






