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Ser advogado de Bolsonaro deve ser como participar daquela corrida de obstáculos onde a pista muda de lugar a cada passo. Um dia desses, me imaginei na pele desse profissional — corajoso, ou talvez desesperado — tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça que veio com peças de outros três quebra-cabeças diferentes.
A cliente chega com aquele ar de “confia, pai” e solta:
— Não teve golpe!
O advogado, inocente, anota. Até aí, tudo bem. Mas no dia seguinte:
— Na verdade, teve golpe, mas eu não sabia.
O advogado pisca, respira fundo e rasga a primeira petição.
Na semana seguinte, a história muda de novo:
— Eu sabia, mas não participei.
O homem já está com a caneta tremendo, mas segue firme. Até que vem:
— Participei, mas não teve violência.
Nessa hora, o advogado já está pensando em migrar para o direito imobiliário. Mas não para por aí:
— Teve violência, mas não tinha arma.
Ele suspira, olha para o céu e pergunta baixinho: “Por que eu não virei influencer de TikTok?”.
Eis que chega a pérola final:
— Tinha arma, mas não foi usada. Era igual à minuta!
— Que minuta?
— Aquela que eu não vi.
— Mas… e se viu?
— Eu vi, mas só queria saber o que era!
Nesse ponto, o advogado já não é mais o mesmo. Ele vira uma espécie de filósofo pós-moderno que questiona a própria realidade. Sua mente agora funciona em camadas: uma sobre a outra, que contradiz a anterior, que nega a próxima.
No fundo, a crônica dessa saga forense é um retrato nada discreto de um tempo em que a verdade parece um jogo de telefone sem fio — cada um fala o que quer, como quer, na hora que convém. E o direito, ah, o direito… vira um mero espectador de um teatro do absurdo onde o script é reescrito a cada cena.
Mas uma coisa é certa: se um dia esse advogado escrever suas memórias, vai vender mais que best-seller de autoajuda. Ou então vai entrar em parafuso e abrir um café com terapia inclusiva para defensores de políticos controversos.
Brincadeiras à parte, a situação é séria. E lucidamente triste. Por trás do humor, há um alerta: quando a narrativa vira um labirinto de versões, a justiça pode ficar perdida na saída — e a sociedade, junto com ela.
Por Alcina Reis

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