“Sem Nenhum Vintém”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Tem candidato que chega à eleição com uma declaração de bens tão enxuta que dá vontade de perguntar: e a bagagem, ficou na alfândega?

Toda temporada eleitoral é a mesma coisa: as cortinas se abrem e nos presenteiam com um espetáculo místico nas declarações de patrimônio. Basta consultar as prestações de contas para testemunhar milagres que fariam até os alquimistas da Idade Média chorarem de inveja.

Há quem ressurge das cinzas políticas batendo no peito e atribuindo sua absoluta falta de bens declarados à sua “trajetória pautada pela honestidade”. Segundo essa lógica fascinante, quanto mais liso o indivíduo se declara no papel, mais puro ele é. É como se a conta bancária recheada fosse um atestado de desonestidade e a miséria voluntária na ficha do sistema fosse um selo de santidade.

Aí vemos outro fenômeno curioso: o ex-prefeito experiente que jura de pés juntos que seu patrimônio total se resume a modestos R$ 15 mil reais e um único veículo na garagem. Nem o cidadão comum trabalhando em dois empregos consegue manter teto e condução sem passar dessa quantia, mas o ilícito e místico político brasileiro consegue passar por mandatos inteiros acumulando menos reserva do que um estagiário focado.

E a história não para por aí. Outro postulante, representando sua sigla partidária, simplesmente informa à Justiça Eleitoral que tem zero bens a declarar. Nada. Nem uma bicicleta encostada, nem um saldo irrisório na conta corrente. Vivem, pelo visto, de luz solar e do amor incontido pela causa pública.

A pergunta que não quer calar é: será mesmo que “eles” acham que essa conversinha mole ainda cola?

O desespero bate à porta e esse povo surge do nada. De um lado, temos aqueles que, apesar da dinheirama que têm, sentem a necessidade visceral da ostentação e do status que o cargo oferece. Do outro lado, temos aqueles para quem a situação exige cautela extrema e muita canja de galinha. Para estes, o cargo público funciona como um verdadeiro colete à prova de balas jurídico, já que garante regras especiais de proteção — como as imunidades e prerrogativas de foro — que impedem prisões preventivas comuns.

Esse teatro de “pobreza moral e financeira” na hora do registro virou uma afronta à inteligência do eleitor. Tentar convencer o povo de que disputar eleição no Brasil é sinônimo de viver no jejum de bens materiais não é apenas debochado: é acreditar que todo mundo ainda cai na história do papai noel eleitoral.

Por Alcina Reis

Compartilhe: