Se já temos “Rei”, pra que eleição?

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A fantástica arte da união pantaneira, onde o almoço de domingo se divide, as dívidas se multiplicam por zero e o trono continua devidamente ocupado.

Para que serve, afinal, a incômoda liturgia das urnas, com seus panfletos de papel acoplados ao vento, filas sob o sol pantaneiro e comícios barulhentos? Em Mato Grosso do Sul, a pergunta ganha contornos de pura filosofia pragmática. Se o Estado já possui um Rei soberano — o ex-governador Reinaldo Azambuja —, organizar eleições parece quase uma indelicadeza burocrática, uma concessão desnecessária ao calendário civil.

A mais recente demonstração de virtuosismo desse xadrez real veio acompanhada de violinos e drama familiar. O senador Nelsinho Trad (PSD) anunciou com pompa seu apoio à reeleição do governador Eduardo Riedel (PP/PSDB). Um gesto nobre, não fosse por um pequeno detalhe doméstico: no outro lado do tabuleiro, devidamente oficializado como candidato pela oposição (Federação Brasil da Esperança PT-PCdoB-PV), está Fábio Trad — ninguém menos que seu próprio irmão. Na mesa do almoço de domingo da família Trad, a sobremesa promete ser servida com uma generosa dose de constrangimento e digestivos reforçados.

Para embalar a decisão e disfarçar o travo amargo do abraço de urso, Nelsinho sacou do bolso uma retórica digna de tragédia grega encenada em auditório municipal:

"Essa luta que travamos até aqui não foi para eleger o Senado de um ou de outro. Foi uma luta que travei contra mim mesmo para entender o que seria mais importante. Com esse gesto, todos nós podemos nos unir em torno de uma palavra que será essencial daqui para frente: a união em torno do projeto da reeleição do governador Eduardo Riedel."

Observem a beleza lírica: o senador não enfrentou a oposição, nem o mercado, nem o irmão; enfrentou a si mesmo. Uma peleja íntima, quase mística, da qual emergiu vitorioso ao concluir que a atitude mais altruísta do mundo era abençoar a situação. Poucas vezes se viu um sacrifício pessoal acompanhado de tanto instinto de sobrevivência política.

A engenharia por trás do milagre, contudo, não tem mistério: tem dono. O deputado federal Dagoberto Nogueira, contagiado por um arrebatamento quase metafísico, tratou de esclarecer a hierarquia dos acontecimentos. Segundo ele, Reinaldo Azambuja atingiu um patamar quântico da articulação:

"Acho que foi uma jogada de mestre do Reinaldo. Eu falo que ele não é desse mundo. É um cara que consegue montar... ele juntou em torno do Eduardo Riedel todos os concorrentes. Juntou a Rose, juntou o Capitão Contar. Ele é muito bom para fazer essas articulações. E agora ele traz o Nelsinho que... logicamente consolida a eleição aqui dos dois. Ele... ele senador e o Nelsinho de primeiro suplente, eu acho que não tem mais nem nenhuma discussão e... e acaba as... as eleições em torno aqui do Senado."

De fato, Reinaldo é um fenômeno supra-humano. Conseguir colocar sob o mesmo guarda-chuva Rose Modesto, Capitão Contar e Nelsinho Trad é um feito que desafia não só as leis da física, mas a própria biologia política. Rivais históricos e desafetos declarados agora repousam harmoniosamente no mesmo curral institutional, ruminando o mesmo projeto de poder sob a regência do monarca sul-mato-grossense.

Nos corredores encarpetados e sussurrados do poder, a fofoca corre solta e sem maquiagem. Dizem os boatos que, por trás da fisionomia abatida e do ar de quem estava “embretado”, Nelsinho não agiu apenas por amor cívico. A proposta para o gesto de abnegação teria sido proporcional ao drama: uma aparente liquidação de certas pendências financeiras, a garantia confortável da primeira suplência no Senado e, de quebra, a promessa de apoio para seu sonhado retorno à prefeitura de Campo Grande — cadeira que já ocupou e da qual guarda ternas saudades.

O famoso quadro do "desenhando", aquele rascunho de bastidor que organiza quem senta em qual cadeira até 2030, já está devidamente moldado e emoldurado pela realeza local. Do Executivo ao Senado, das prefeituras estratégicas às suplências de luxo, o destino do Estado parece traçado com a precisão de um cartório medieval.

No fim das contas, a democracia em Mato Grosso do Sul ganha contornos de mero carimbo homologatório. Para que gastar energia com debates, palanques e odores de multidão, se o Grande Arquiteto do Parque dos Poderes já definiu o elenco, o roteiro e o final feliz? Afinal de contas, se já temos Rei, eleição pra quê?

Mas e o eleitor? Foi avisado?

Vida longa ao Rei!

Por Alcina Reis

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