“Se Isso Não é Crime, Então o Crime é a Nossa Passividade”
- porAlcina Reis
- 09 de Agosto / 2025
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| Créditos: Imagem / Maxi Educa
Sabe o que é cansaço? Não o físico, de um dia longo. Mas aquele cansaço moral, que se acumula e pesa na alma. É a sensação de estar sempre puxando uma corda que, por mais força que você faça, não move nada. É a indignação que, de tanto se repetir, vira um nó na garganta.
O deputado Eduardo Bolsonaro, que nem sequer está no país, recebe R$ 17 mil de salário e mais R$ 123 mil para seus funcionários (que, convenhamos, não devem estar sobrecarregados de trabalho, já que o chefe está longe). Além disso, tem direito a auxílio-moradia, reembolsos milionários de saúde e pode indicar quase R$ 38 milhões em emendas. Tudo isso enquanto vive nos EUA. E está tudo dentro da lei.
Mas não para por aí. Enquanto o cidadão comum paga caro por um café no aeroporto, os ministros do TST têm uma sala VIP exclusiva, custando R$ 30 mil por mês aos cofres públicos. Não basta viajar com conforto; é preciso um espaço privativo, com direito a estacionamento e mimos extras. Afinal, sofrer como meros mortais é inadmissível para essa casta.
E os juízes? Ah, esses são imbatíveis. Seus "penduricalhos" já superam o custo de cinco programas sociais juntos. R$ 6,89 bilhões para menos de 19 mil magistrados, enquanto milhões de brasileiros dependem de migalhas do Bolsa Família, do Auxílio-Gás e outros programas que, somados, não chegam perto do que o Judiciário reserva para si mesmo. E tudo isso cresce quase 50% em dois anos, dez vezes a inflação. Mas, claro, a culpa do déficit público é do pobre que recebe R$ 1.518,00 por mês.
O INSS, então, é o cúmulo da ironia. Bilhões descontados indevidamente de aposentados, sem autorização. Quase 100% das vítimas nunca concordaram, mas o dinheiro sumiu mesmo assim. E, pasmem: parte disso é legal. Sim, porque no Brasil, a lei não serve para proteger o cidadão, mas para legitimar o roubo.
E é aí que o cansaço vira desesperança. Porque quando a aberração é legal, quando o desvio de caráter é amparado pela lei, o que nos resta? A gente vive em um país onde os saques aos cofres públicos são tão institucionalizados.
A gente não está mais indignado com a ilegalidade, mas com a legalidade da indignidade.
E a pergunta volta, mais forte, mais amarga: como esperar que o Brasil tenha solução, se a doença já está na estrutura, na sua medula, na sua lei?
O verdadeiro crime não está só nos salários absurdos, nos auxílios indecentes ou nos desvios bilionários. O crime maior é a nossa resignação. É aceitar, ano após ano, que "sempre foi assim". É achar normal que políticos usem o dinheiro público como mesada, enquanto faltam remédios em hospitais e crianças estudam em escolas caindo aos pedaços.
Se não nos indignamos, se não cobramos, se não exigimos mudanças, então somos cúmplices. Porque o pior não é o ladrão que rouba — é o povo que deixa.
O editorial de hoje não é sobre o que está errado, mas sobre o que está errado sendo considerado certo.
E isso, meus amigos, é o mais assustador de tudo.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal






