Santa Casa acumula dívida de R$ 792,6 milhões enquanto recebe R$ 4 milhões para compras emergenciais

| Créditos: Foto: Gerson Oliveira


A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande ganhou novos contornos com a divulgação de dados sobre o endividamento da instituição e, ao mesmo tempo, a formalização de um aporte emergencial de R$ 4 milhões para garantir a compra de medicamentos e materiais hospitalares.

Levantamento financeiro apresentado pelo Governo de Mato Grosso do Sul ao Tribunal de Justiça aponta que o passivo da Santa Casa chegou a R$ 792,6 milhões em 2025, crescimento de 42% em relação aos R$ 555,7 milhões registrados em 2023. O montante equivale a cerca de 4,6 vezes o patrimônio do hospital, estimado em R$ 170,2 milhões.

Os dados também mostram que os recursos públicos destinados à instituição pelo Sistema Único de Saúde aumentaram de R$ 344,6 milhões em 2022 para R$ 438,7 milhões em 2025. Paralelamente, despesas relacionadas a escritório, diretoria e taxas sem vínculo direto com o atendimento aos pacientes cresceram 155%, chegando a R$ 198,1 milhões.

A situação financeira é acompanhada de perto pela Justiça. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul manteve suspenso o repasse de R$ 126 milhões solicitado pela Santa Casa em uma ação que também pede a elevação do convênio mensal, atualmente em R$ 32,7 milhões, para R$ 45,9 milhões.

R$ 4 milhões para recompor estoques

Enquanto a discussão sobre as contas do hospital continua, Prefeitura de Campo Grande e Governo de Mato Grosso do Sul oficializaram um convênio de R$ 4 milhões para enfrentar a falta de insumos.

Do total, R$ 1 milhão será bancado pelo município, com recursos do Tesouro Municipal, e R$ 3 milhões serão destinados pelo Governo do Estado, também provenientes do Tesouro Estadual. O dinheiro será utilizado na aquisição emergencial de medicamentos e materiais médico-hospitalares, além da recomposição dos estoques necessários ao funcionamento dos serviços.

O acordo tem validade de 120 dias a partir da última assinatura e foi firmado por Adriane Barbosa Nogueira Lopes, Marcelo Luiz Brandão Vilela, Maurício Simões Corrêa e Luiz Alberto Hiroki Kanamura. A aplicação dos recursos deverá seguir o plano de trabalho estabelecido no convênio, com prestação de contas e comprovação da utilização dos valores.

Crise administrativa e investigação

A crise financeira ocorre após a Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul em setembro. A investigação levou à prisão da então presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, além de outros integrantes e ex-integrantes da administração e um empresário.

Entre os investigados estão Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites. A operação apura possíveis irregularidades em contratos, incluindo serviços de digitalização de prontuários.

Segundo as investigações, também foram identificados contratos entre a operadora Santa Casa Saúde e empresas relacionadas ao mesmo grupo empresarial. O Ministério Público apontou pagamentos de R$ 9,6 milhões em 2025 e estimou prejuízo de pelo menos R$ 3,5 milhões nesses contratos, enquanto o valor total de eventual prejuízo ainda é investigado.

Com o afastamento da antiga administração, o cirurgião Luiz Alberto Hiroki Kanamura passou a atuar na gestão provisória do hospital. A nova administração assumiu com a missão de reorganizar as contas, recuperar a capacidade de atendimento e restabelecer a confiança da população.

Ao mesmo tempo, a Santa Casa enfrenta atrasos nos pagamentos de profissionais. Segundo informações do sindicato médico, cerca de 300 médicos contratados como pessoas jurídicas teriam aproximadamente R$ 32 milhões a receber, com pagamentos pendentes desde maio.

O cenário coloca a instituição diante de um desafio duplo: garantir o funcionamento imediato dos serviços com o auxílio dos R$ 4 milhões emergenciais e, paralelamente, enfrentar um passivo que já se aproxima de R$ 800 milhões, além das consequências das investigações sobre a antiga gestão.

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