“Rei Morto, Rei Posto”

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A política não tem memória afetiva. Tem cálculo. Tem interesse. Tem conveniência. E, sobretudo, tem movimento. Por isso a velha máxima segue atual: rei morto, rei posto. Quem não entende isso acaba sendo engolido pela própria arrogância — e foi exatamente isso que aconteceu.

Fica a pergunta que ecoa, incômoda e inevitável: 

Eduardo Bolsonaro realmente acreditou que poderia manipular Donald Trump? 

Que bastaria proximidade ideológica, selfies e discursos inflamados para transformar o ex-presidente norte-americano em instrumento de um projeto familiar? A realidade mostrou o contrário. Trump fez o que sempre fez: aproveitou a brecha, leu o cenário e negociou como lhe convém. Nada pessoal. Política pura.

Enquanto Eduardo apostava todas as fichas em uma estratégia externa, passou a atuar como se fosse representante de interesses alheios, afrontando o próprio país, conduzindo discursos e gestos que soaram para muitos brasileiros como submissão simbólica, estendendo a bandeira dos Estados Unidos sobre conflitos internos do Brasil. Ao internacionalizar disputas nacionais de forma atabalhoada, confundiu pressão diplomática com espetáculo político — e pagou o preço.

Trump, por sua vez, enxergava algo maior: a oportunidade de se aproximar de Lula, abrir canais diplomáticos e tratar de interesses estratégicos. Resultado? A roda girou — e girou contra quem achou que controlava o jogo.

Na política, convém lembrar, ninguém é. Apenas está. Ou esteve.

E se hoje a derrota política de Jair Bolsonaro precisa ser traduzida em nomes, muitos dentro da própria direita não hesitam: Eduardo, no nome; Michele, no sobrenome. Os filhos, na ânsia pelo poder e pela sobrevivência política, somados a uma madrasta que parece ter se encantado com os holofotes — mesmo sem lastro político ou preparo institucional — acabaram fazendo o que adversários externos não conseguiram: eliminar Bolsonaro do tabuleiro como força real de poder.

Não foi a esquerda. Não foi o Judiciário. Não foi a imprensa. 

Foi o núcleo familiar, fechado em si mesmo, convencido de que bastava o sobrenome para sustentar um projeto nacional. Apostaram na fama, subestimaram a complexidade da política e confundiram influência momentânea com liderança duradoura.

O efeito colateral é grave. A direita brasileira hoje está órfã. Não de discurso, não de base social — mas de liderança real, com visão de Estado, capacidade de diálogo e compromisso com algo maior do que interesses pessoais. O eleitor conservador começa a perceber que o país precisa de um líder para a nação, não de uma família preocupada apenas com o próprio umbigo.

A política não é herança. Não é reality show. Não é sobrenome. É projeto, articulação e leitura correta do tempo histórico. Quem ignora isso, mais cedo ou mais tarde, assiste à própria queda — enquanto a roda segue girando, indiferente a vaidades, lealdades e ilusões de grandeza.

Por Alcina Reis

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