“Quando a Farda Grita Mais Alto Que a Razão”

| Créditos: Foto: Saul Schramm


A formatura da 38ª turma da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul tinha tudo para ser um momento de celebração da conquista de 427 novos soldados. Era, afinal, a maior turma da história do Estado. Mas, em vez de ecoar mensagens de compromisso com a ordem e a segurança da população, o que reverberou pelas redes sociais foi o grito de guerra que escancarou o oposto:

“Bate na cara, espanca até matar
Arranca a cabeça dele e joga ela pra cá
O interrogatório é muito fácil de fazer
Eu pego o vagabundo e bato nele até morrer...”

A população ficou chocada, e com razão. Não se trata de exagero nem de “mimimi”. A glorificação da violência — especialmente vinda de quem detém o monopólio da força — não é apenas perigosa, é inadmissível.

Claro, não sejamos hipócritas. A cada crime bárbaro que vem à tona — contra crianças, mulheres, idosos — a revolta pública cresce e, sim, muitos cidadãos sentem raiva, vontade de justiça com as próprias mãos. Mas há um abismo entre sentir e fazer. Entre impulsos e instituições. E o papel da Polícia não é ceder à fúria popular, mas ser o freio da barbárie.

Se cada cidadão resolvesse gritar o que sente diante das injustiças do mundo, o caos se tornaria cotidiano. Justamente por isso, esperamos da Polícia equilíbrio, preparo, disciplina. Esperamos que a farda represente o Estado de Direito — não o descontrole.

A resposta oficial do governo veio: repudiou a apologia à violência, prometeu apuração e classificou o caso como “isolado”. Ainda bem. Que assim seja. Mas há um alerta que não pode ser ignorado: quando o grito de guerra soa mais alto que a razão, a confiança na segurança pública se desfaz — e com ela, a esperança de um convívio mais civilizado.

Então, “meninos da segurança”, contenham sua adrenalina. Respirem. O mundo está farto de guerra. Promover a paz exige mais coragem do que apertar um gatilho verbal. E coragem, essa sim, é virtude esperada de quem veste a farda.

Fica aqui uma sugestão de novo grito:

Parou, parou com a provocação!
A missão aqui é pôr fim à confusão.
É ordem, justiça e consciência —
E pra quem duvida: a paz faz a diferença!

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal

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