“Prometer é fácil. Governar é que são elas.”
- porAlcina Reis
- 06 de Agosto / 2026
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Durante a campanha eleitoral, o Estado de Mato Grosso do Sul ganha contornos de terra prometida. É um período fascinante da física política: o tempo corre diferente e a gravidade dos problemas simplesmente deixa de existir. O asfalto brota em semanas, as filas dos hospitais somem num piscar de olhos, os impostos evaporam e o emprego surge antes mesmo da entrega do currículo. A corrupção, essa coitada, é erradicada no primeiro discurso inflamado de palanque. Tudo cabe num jingle chiclete de trinta segundos e num abraço caloroso em idoso na feira central.
Aí a urna fecha, o confete cai, vem a posse... e o reality show da vida real entra no ar.
De repente, a física retoma suas leis implacáveis e o vocabulário oficial passa por uma mágica metamorfose. O vigor das promessas dá lugar ao cansado coral dos diagnósticos: "A situação encontrada era substancialmente pior do que imaginávamos", "Faltam recursos orçamentários", "A culpa é da herança maldita da gestão anterior" e o clássico universal: "É preciso ter paciência e esperar". De preferência, esperar até a próxima eleição.
Paciência, no entanto, é artigo em falta para quem encara a dura rotina do Estado.
A começar pela segurança das mulheres, assunto que no palanque rende discursos emocionados, lenços rosa e promessas de proteção integral. Na prática, o que se vê é a triste liderança do estado no ranking nacional de feminicídios, onde mais da metade dos homicídios femininos acontecem simplesmente por serem mulheres. Enquanto o discurso promete redes blindadas de proteção, os prontuários do SUS transbordam com milhares de notificações de violência física, psicológica e sexual — na esmagadora maioria cometidas por parceiros ou ex-parceiros dentro de casa. As medidas protetivas, que no papel deveriam ser escudos digitais de alta tecnologia, viram meros papéis diante do descumprimento impune. E, para surpresa de zero cientistas sociais, a conta dessa falha chega de forma terrivelmente desproporcional para as mulheres pretas, pardas e moradoras das aldeias indígenas.
Na saúde pública, a mágica pré-eleitoral de "zerar filas" transforma-se na conhecida maratona dos mutirões. Programas com nomes empolgantes prometem resolver o passado, mas a dona de casa do interior continua esperando meses por um exame de imagem ou uma cirurgia eletiva.
O interior, aliás, parece sofrer de um mistério geográfico: os médicos especialistas concentram-se confortavelmente nos grandes centros como Campo Grande e Dourados, enquanto o resto do mapa que se vire com chá de picão ou reza forte.
Nas aldeias Guarani, Kaiowá e Terena, a "modernização" prometida na TV esbarra na ausência do básico: falta água tratada e saneamento, enquanto sobram casos de tuberculose e infecções infantis. Mas, claro, a culpa é da burocracia do ministério.
E o que dizer das outras fronteiras da ilusão? A imensa faixa que nos separa do Paraguai e da Bolívia, que no plano de governo seria blindada por inteligência artificial e tecnologia de ponta, segue entregue ao roteiro do narcotráfico e do contrabando, esperando uma integração policial que só existe em slide de PowerPoint. No Pantanal e no Cerrado, as queimadas históricas parecem pegar os gestores de surpresa todo ano — como se o fogo e a seca severa fossem eventos inéditos e imprevisíveis no calendário sul-mato-grossense, tal qual uma neve repentina no Saara. Já no campo, as históricas tensões fundiárias continuam empacadas entre a insegurança jurídica e a mediação a passos de tartaruga, enquanto os discursos de posse prometiam "paz e diálogo imediato".
Mas a verdadeira mágica desse teatro político não está nas promessas descumpridas; está no estranho fenômeno de amnésia coletiva que atinge o eleitorado assim que o santinho eleitoral encosta na mão. O cidadão sul-mato-grossense desenvolveu uma memória com prazo de validade menor que o de um iogurte fora da geladeira. Esquece-se de que a corrupção não é um fantasma abstrato, mas algo com endereço, CPF, carro oficial e terno sob medida.
Ninguém deveria ter o direito de sofrer desse "Alzheimer eleitoral" e esquecer o desfile ostensivo de operações do GAECO e do GECOC. A memória do eleitor precisa ter mais gigabytes para registrar nomes de políticos, secretários e empresários apanhados em esquemas emblemáticos — seja na Operação Gudemberg, onde até o acesso à saúde virou moeda de troca em fraudes; ou na Spotless, que escancarou o aparelhamento de prefeituras do interior. Relembrar esses nomes investigados e guardar na memória a lista dos réus não é rancor; é legítima defesa democrática. Votar novamente em quem já saiu no noticiário policial vestindo pulseiras de aço e escoltado por viatura é o equivalente político a deixar a raposa cuidando do galinheiro... e ainda pedir desculpas pela incômodo.
No fim das contas, a transição entre o candidato e o governante é a arte de transformar soluções mirabolantes em desculpas burocráticas. Prometer a lua no comício não custa nada — o frete é grátis. O problema vem quando o eleitor acorda no dia seguinte, descobre que por puro esquecimento, entrega novamente a chave do cofre para os mesmos personagens de sempre, esperando, ingenuamente, um final diferente.
Porque prometer continua sendo a parte mais barata da política.
Governar custa muito mais.
E esquecer... às vezes custa uma eleição inteira.
Por Alcina Reis






