“Porta Aberta para o Caos”

| Créditos: IA /Conteúdo MS

Imaginem a cena: um estranho arromba a porta da sua casa em plena luz do dia. Não vem para roubar silenciosamente. Ele vem para destruir. Quebra os móveis, rasga as fotografias da família, profana os objetos mais queridos. Ele cospe no retrato dos seus avós, espatifa os pratos que herdou da sua mãe e xinga você, seus filhos, sua história. Ele não quer os seus bens; quer demolir a sua dignidade, o seu porto seguro, a sua paz.

Exausto e satisfeito com o caos que promoveu, o intruso não foge. Ele se senta no que restou do seu sofá, olha para você, insultado e paralisado, e pede um copo d'água. E então, chega um vizinho. Em vez de chamar a polícia, de ajudá-lo a submeter aquele vândalo à justiça, o vizinho olha para você e diz: "Precisamos pacificar a rua. O melhor é perdoá-lo. Vamos conceder anistia. Deixe isso para trás."

Soa como um absurdo completo, uma injustiça que fere a alma. Pois é exatamente essa a sensação que toma conta de quem ainda acredita num pilar básico de qualquer sociedade civilizada: a responsabilidade perante a lei. Questionar a anistia para os que tentaram subverter a democracia não é sobre vingança, é sobre o princípio elementar de que atos têm consequências.

A impunidade, como bem alertou um dos guardiões da nossa Lei Maior, não é um caminho para a paz. É um atalho pantanoso que só leva a cicatrizes traumáticas. É o terreno fértil onde a semente do mesmo mal pode ser plantada de novo, na certeza de que não haverá colheita de punição. Quem quebra a casa alheia, seja ela de tijolos ou de instituições, na expectativa de ser perdoado pelo estrago, não aprende a lição. Pelo contrário, aprende que pode repetir o feito.

A história do nosso país, daquela anistia de 1979 que em seu duplo aspecto também serviu para lavar de sangue as mãos de torturadores, nos ensinou que o perdão fácil aos poderosos é uma moeda de troca perversa. É um acordo que beneficia o criminoso e abandona a vítima com sua dor e sua ruína.

Permitir que os responsáveis por arquitetar e executar uma tentativa de golpe contra o Estado saiam incólumes, anistiados por uma suposta "pacificação", é o mesmo que entregar a chave da sua casa ao mesmo vandalos e esperar que, da próxima vez, eles batam à porta antes de entrar para destruir. É normalizar o inormalizável. É transformar a exceção grotesca em regra.

A verdadeira pacificação não nasce do esquecimento forçado ou do perdão não merecido. Ela nasce da justiça. Do entendimento claro e inequívoco de que algumas linhas não podem ser cruzadas. De que uma casa, uma praça, um país, precisa ter portas sólidas e leis mais sólidas ainda. E que quem vier para derrubá-las não pode simplesmente ganhar um copo d'água e uma absolvição. Precisa ser responsabilizado. Para que a casa de todos fique, de fato, em paz.

Para que o Brasil avance, é preciso que os responsáveis pelos atos de 8 de janeiro respondam com punições justas por seus crimes.

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal

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