PF investiga morte de homem com esquizofrenia sob suspeita de trabalho análogo à escravidão e abuso por grupo religioso

| Créditos: DIVULGAÇÃO/PF


A Polícia Federal investiga as circunstâncias que levaram à morte de Paulo Amaro Freire, de 54 anos, em dezembro de 2023, em Bataguassu, a 300 km de Campo Grande. Segundo familiares, ele teria tirado a própria vida após sofrer pressões e ser submetido a trabalho análogo à escravidão em propriedades ligadas a membros das Testemunhas de Jeová, grupo religioso ao qual era ligado. O caso é acompanhado pelo Ministério Público Federal.

Freire havia sido diagnosticado com esquizofrenia aos 18 anos e era legalmente representado por uma curadora, sua irmã. Apesar das limitações, mantinha vida social e chegou a ter dois filhos. Nos últimos anos, rompeu laços com a família após aderir à religião da segunda companheira e passou a viver em ambiente controlado por membros da congregação.

A família afirma que, após sua adesão às Testemunhas de Jeová, Paulo passou a realizar tarefas pesadas, como instalação de cercas sob o sol e manuseio de máquinas de solda, mesmo sem receber alimentação adequada. Ele também teria sido afastado do convívio familiar por meio do processo de “desassociação”, prática que isola o membro da comunidade religiosa e de seus parentes também fiéis.

Documentos registrados em cartório relatam que, nos dias que antecederam o suicídio, Paulo apresentava sinais de fraqueza e dificuldades para se comunicar. Em visita ao posto de saúde, exames indicaram desnutrição. No dia de sua morte, foi visto entregando pacotes a um casal ligado à congregação, que evitou contato com familiares.

Entre os documentos deixados por Paulo, a família encontrou uma procuração para cuidados médicos, com cláusula de recusa de transfusão de sangue — prática comum entre os adeptos da religião — assinada sem consentimento da curadora.

A direção das Testemunhas de Jeová, por meio de porta-voz regional, lamentou o ocorrido e afirmou desconhecer o suicídio. Negou a desassociação formal de Paulo e disse que acompanhará a apuração conduzida pela PF.

A prática de desassociação tem sido alvo de críticas por ex-membros da religião, que relatam isolamento social e psicológico após a exclusão. O grupo, por sua vez, afirma que promove apoio espiritual a quem enfrenta dificuldades, incluindo pensamentos suicidas.

A investigação segue em andamento.

Fonte: Midiamax

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