“Pelo jeito essa tal urna eletrônica é segura mesmo, né? Não vi ninguém reclamando até hoje”


O silêncio das urnas costuma ser muito mais barulhento do que o bipe estridente que confirma o voto. Entre um clique rápido e a confirmação na tela, o cidadão deposita ali não apenas o seu voto, mas a ingênua expetativa de que a engrenagem democrática funcione sem sobressaltos. Mas basta o resultado sair para que o grande teatro das desconfianças abra as suas cortinas.

A memória coletiva, no entanto, padece de uma curiosa amnésia seletiva. Há quem critique a tecnologia com o fervor de um profeta do apocalipse, mas esqueça com extrema facilidade o passado recente. Antigamente, na era do papel e da caneta, o apuramento dos votos era quase uma prova de resistência medieval. Cédulas "desapareciam" misteriosamente em transporte, urnas de pano surgiam recheadas de votos duplicados na calada da noite e a contagem manual arrastava-se por dias — tempo suficiente para que a criatividade de certos bastidores políticos operasse verdadeiros milagres.

Hoje, a ironia atinge o seu ponto alto nas redes sociais. Críticas ferozes sobre a segurança do sistema eletrónico são datilografadas a partir de telemóveis que mapeiam cada passo do utilizador, partilham dados bancários via PIX sem pestanejar e armazenam toda a sua vida na nuvem. A desconfiança com a tecnologia parece ser altamente seletiva: aceita-se o algoritmo que sugere compras e reconhece rostos, mas duvida-se da máquina que apenas conta um número de dois a cinco dígitos.

No fundo, a contestação da urna raramente tem a ver com circuitos, cabos ou encriptação. Trata-se de uma questão de pura conveniência desportiva e política. Quando o candidato de estimação vence, o sistema é aclamado como um modelo de eficiência e modernidade para o mundo; quando perde, a máquina transforma-se subitamente num artefacto diabólico manipulado por forças ocultas.

Afirmar que nada é imune a falhas é um exercício saudável de cidadania. O aperfeiçoamento e a auditoria constante são indispensáveis. Contudo, transformar a dúvida legítima num desporto de narrativa para justificar derrotas é apenas um atalho cómodo. A urna eletrónica pode até ter os seus desafios técnicos, mas o verdadeiro ponto cego da democracia continua a ser a incapacidade humana de aceitar o resultado das próprias escolhas.

Por Alcina Reis

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