O Teatro das Sombras no Parque dos Poderes

| Créditos: Sindbast


Caminhar pelas calçadas do Parque dos Poderes, em Campo Grande, deveria evocar em nós um sentimento de representatividade. Afinal, é ali, sob o teto da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALMS), que o destino de quase três milhões de sul-mato-grossenses é traçado. No entanto, o que se sente ao observar as luzes do plenário é um misto de perplexidade e um incômodo silêncio vindo de quem deveria ter a voz mais alta: o presidente da Casa de Leis.

A política, em sua essência, deveria ser o exercício da transparência. Mas, ultimamente, a Assembleia parece ter adotado o figurino de um clube fechado, onde as decisões são tomadas entre quatro paredes, sem que uma explicação plausível chegue aos ouvidos de quem paga a conta. O eleitor, esse personagem que só ganha protagonismo de quatro em quatro anos, assiste de camarote a manobras que desafiam a lógica da prioridade pública.

Tome-se como exemplo o episódio envolvendo Jaime Verruck e o repasse de R$ 7 milhões à Fiems. Em um estado com demandas gritantes em infraestrutura e assistência, o destino de uma soma tão vultosa a uma federação industrial levanta sobrancelhas. Onde está o detalhamento técnico? Qual o retorno direto para o cidadão comum? O vácuo de respostas é preenchido apenas pela desconfiança.

Como se não bastasse, o roteiro do descaso ganhou um novo capítulo recentemente. Com uma agilidade invejável — que raramente se vê em projetos de impacto social — os deputados aprovaram, em primeira votação, a criação de 150 novos cargos no Tribunal de Justiça de MS (TJMS). A pergunta que ecoa nos corredores e nas redes sociais é uma só: e os concursados?

Há uma fila de homens e mulheres que estudaram, abdicaram de momentos com a família e investiram recursos próprios acreditando na meritocracia do serviço público. Ver a criação de novos cargos "na canetada", enquanto os aprovados em concursos vigentes são ignorados, é um tapa na face da eficiência administrativa. É priorizar o inchaço da máquina em detrimento do direito de quem conquistou sua vaga por esforço próprio.

A população sul-mato-grossense cansou do papel de espectadora passiva. A falta de transparência na gestão da Assembleia não é apenas uma falha de comunicação; é uma falha ética. Quando o presidente da Casa silencia diante desses questionamentos, ele não ignora apenas a imprensa ou a oposição; ele ignora o próprio povo que lhe conferiu o mandato.

A democracia não termina na urna; ela começa ali. E o que queremos agora não são sorrisos em fotos oficiais ou discursos ensaiados. Queremos respostas. Queremos saber por que o dinheiro público segue caminhos tão sinuosos e por que o mérito dos concursados vale menos que a conveniência política de novas vagas. No teatro das sombras do legislativo, está passando da hora de alguém acender a luz.

 

Por Alcina Reis

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