“O Silêncio que Mata”

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O pai de família, que nunca deixava de estender um "bom dia" ao vizinho. A jovem universitária, cuja timeline vibrava com a promessa de sorrisos. O senhor aposentado, silencioso, que media a vida pelo florescer de seu jardim. Vidas tão únicas, tão cheias de si, que agora se tornam linhas frias no mapa de Mato Grosso do Sul. Os dados do estado, implacáveis e secos, as agrupam: centenas de vidas perdidas, a maioria homens, muitos deles jovens.

Mas os números, ah, os números não falam a língua do coração. Eles não descrevem o vazio que se instala devagar, um buraco negro de luto que suga a luz de dentro para fora. Não traduzem o peso nos ombros que transforma o simples ato de levantar-se em uma montanha intransponível. Não dão conta da dor muda que, como uma tesoura invisível, vai cortando os fios que nos ligam à vida.

A Lição do Silêncio

A pergunta que ecoa nesse espaço oco, deixado por cada uma dessas partidas, é justamente sobre o silêncio. A pessoa que chega ao extremo do suicídio está, por definição, além da capacidade de pedir ajuda. A força acabou. A esperança se esvaiu. O grito, se é que ainda existe, é interno, abafado por uma cortina de desespero e exaustão.

Então, o que fazemos? Esperamos que alguém, no ápice de seu sofrimento, tenha a lucidez e a energia para buscar um auxílio que sua própria mente lhe diz ser inútil? Confiamos apenas que o Estado crie mecanismos ou que campanhas bem-intencionadas digam "procure ajuda", quando a própria doença é a barreira intransponível para procurá-la?

A urgência dessa crônica está no homem em silêncio, aquele que, em algum lugar de Campo Grande ou de uma pequena cidade do interior, veste a armadura invisível que a sociedade lhe impôs: ser forte, inabalável, provedor. Ele está sozinho, mesmo rodeado, e a cultura lhe ensinou que verbalizar a fragilidade é um atestado de falha. O silêncio masculino não é uma escolha; é, muitas vezes, uma sentença ditada pelo estigma. A corda foi atirada no poço, mas seus braços, exaustos, não conseguem agarrá-la.

A Coragem de Estender a Mão

A verdade é que não podemos delegar essa responsabilidade apenas aos governos. A população precisa resgatar urgentemente o amor ao próximo, um princípio tão bíblico quanto humano e vital. É cansativo? Por vezes, sim. Pode ser entediante ouvir as mesmas murmurações, a mesma negatividade de alguém que está no fundo do poço? Pode ser.

Mas lembre-se: você não precisa ter todas as respostas ou resolver todos os problemas. Você só precisa, genuinamente, ouvir. Oferecer um ombro, um café, uma presença silenciosa que diz, sem palavras: "Você importa."

Precisamos ser humanos complacentes. Tentar, mesmo com nossas limitações, fazer com que aquela pessoa enxergue um único fio de luz, um único motivo para ver o sol nascer no dia seguinte. Um filho, um animal de estimação, um projeto inacabado, a simples promessa de que a dor não é eterna.

As medidas eficazes, portanto, começam muito antes do precipício. Estão na desconstrução do "homem de aço", que não pode chorar e engole o sofrimento até ele virar um câncer da alma. Estão na educação emocional nas escolas. E estão, sobretudo, na coragem de cada um de nós de não se afastar de quem sofre e de ficar atento aos sinais: o isolamento que se prolonga, o abandono de atividades que antes davam prazer, as frases de autodesvalorização.

Onde a Ajuda Precisa Chegar

Para que a ajuda chegue antes do colapso, a solução passa, também, por um reforço na Atenção Primária à Saúde (APS). O posto de saúde, a UBS, é o primeiro e mais acessível contato do cidadão com o sistema. É ali que o agente comunitário e o médico da família devem estar aptos a:

Identificar Sinais Ocultos: Fazer uma triagem de saúde mental, reconhecendo que a dor emocional muitas vezes se manifesta em queixas corporais (a dor de cabeça, a dor física inexplicável).

Promover a Saúde Ativamente: Não basta esperar. É preciso realizar busca ativa, levando o diálogo sobre saúde mental e grupos de apoio para os bairros e locais de trabalho, de forma a romper o estigma e o silêncio.

Não basta esperar o grito. É preciso aprender a ouvir o silêncio. A lição mais importante é a humildade de lembrar que ninguém está livre de passar por isso. A vida é um vendaval que, cedo ou tarde, balança todas as árvores. A solidariedade que oferecemos hoje pode ser a rede que nos amparará amanhã.

A pergunta que fica, após fechar os relatórios oficiais, não é "por que eles não pediram ajuda?". A pergunta verdadeira, urgente e necessária é: "Eu estou disposto a estender a mão antes que o pedido de ajuda se torne impossível?"

A resposta pode não estar só no poder público, mas no espelho.

Por Alcina Reis

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