“O retorno da vergonha”

| Créditos: foto: CBF/ IA Conteúdo MS


Durante décadas, vestir a camisa da Seleção Brasileira representava o maior orgulho para qualquer jogador. Defender o Brasil era uma missão, um sonho e uma responsabilidade que transcendiam o dinheiro. Hoje, infelizmente, a impressão que fica é bem diferente.

A eliminação precoce na Copa do Mundo de 2026 não expôs apenas um futebol sem criatividade e sem identidade. Revelou uma seleção distante da paixão que fez do Brasil referência mundial no esporte. O avião da volta trouxe muito mais que uma derrota: trouxe a sensação de que o respeito conquistado ao longo de gerações está se perdendo.

Não sou especialista em futebol. Pelo contrário, entendo muito pouco do assunto. Mas talvez justamente por isso enxergue aquilo que milhões de brasileiros também percebem: falta entrega, falta comprometimento e sobra marketing.

Criou-se uma cultura de idolatria em torno de jogadores que acumulam fortunas milionárias dentro e fora dos gramados, enquanto o retorno esportivo para a Seleção está muito aquém da expectativa. Neymar, maior símbolo dessa geração, encerra sua trajetória na equipe nacional após quatro Copas do Mundo e sem conquistar o tão esperado hexacampeonato.

Ninguém pode negar sua qualidade técnica ou sua importância histórica para o futebol brasileiro. Porém, é inevitável questionar se o modelo atual, que transforma atletas em celebridades bilionárias antes mesmo de conquistarem títulos relevantes com a camisa da Seleção, não contribuiu para diminuir o peso de representar o país.

Enquanto alguns jogadores acumulam salários milionários em seus clubes, contratos publicitários e direitos de imagem, o Brasil continua convivendo com uma realidade dolorosa: milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, pobreza e dificuldades para garantir o básico dentro de casa. Não se trata de culpar um atleta pela desigualdade social, mas de refletir sobre as prioridades de um país que transforma o futebol em espetáculo financeiro enquanto tantos brasileiros ainda vivem à margem da dignidade.

Talvez seja hora de rever valores. Não apenas financeiros, mas principalmente morais. A camisa da Seleção precisa voltar a representar honra, compromisso e responsabilidade, e não apenas uma vitrine para marcas, contratos e redes sociais.

Admito que entendo pouco de futebol. Mas, se o pouco que sei já me leva a essas conclusões, confesso que a vontade que dá é de não perder mais tempo assistindo à Seleção da vergonha em campo.

Porque derrotas fazem parte do esporte. O que o torcedor brasileiro não aceita é ver desaparecer, junto com as vitórias, a alma do futebol que um dia encantou o mundo.

 

Por Alcina Reis

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