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O luto oficial de três dias decretado pelo Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), Campus Campo Grande, após a perda de dois jovens estudantes por suicídio em menos de 50 dias, é uma cena pesada, mas tristemente familiar. É o ritual da tragédia, onde a dor se traduz em comunicados formais, suspensão de atividades e a promessa solene de "planos de saúde mental" e "protocolos de atendimento".
Mas, como a voz corajosa de uma aluna na postagem denuncia com uma clareza que corta, o problema não está no que se fala depois da queda. O problema está no que se pratica no cotidiano. O “normal é o problema”, ela crava. E o normal, no contexto de uma instituição de excelência como o IFMS, parece ser o esgotamento silencioso, a cobrança desmedida e a hipocrisia institucional.
“Fala-se muito sobre empatia, cuidado e saúde mental, mas o que se pratica é o contrário.”

Não é de hoje que a juventude grita por socorro. O protesto de outubro, exigindo mais estrutura e ações de saúde mental, já era um prenúncio. A resposta, contudo, ainda é a do mínimo existencial: uma psicóloga para a triagem inicial de centenas, senão milhares, de alunos, com o peso dos casos subsequentes jogado para a rede pública. Isso não é acolhimento; é burocracia da dor. É delegar a crise, desresponsabilizar-se pelo cuidado contínuo.
O Luto se Torna Papel: A Resposta Institucional
Em uma tentativa de transformar o luto em ação, o IFMS instituiu formalmente um Grupo de Trabalho (GT) para criar dois documentos cruciais. A medida representa o início de uma transição da reação imediata para uma estruturação burocrática, com a participação de profissionais de diversos campi e, importante, de estudantes.
Os documentos em desenvolvimento são:
Um Programa Institucional de Saúde Mental com diretrizes permanentes.
Um Protocolo de Atendimento Qualificado para situações de sofrimento psíquico agudo, detalhando fluxos e a articulação com a rede pública.
A instituição declara o compromisso de aprimorar a prevenção e o acolhimento, prometendo um olhar mais humanizado.
O desafio, no entanto, é fazer com que esses documentos não sejam apenas mais um "texto bonito" na prateleira. O Brasil e, de forma particularmente alarmante, Mato Grosso do Sul, já carregam o fardo de estatísticas de suicídio juvenil que deveriam soar como um alarme constante. Neste cenário, as instituições de ensino, que deveriam ser um porto seguro, tornam-se, na visão dos estudantes, máquinas de pressão.
A aluna questiona a efemeridade das ações: a homenagem passageira, o texto bonito. É a crítica à "saúde mental de campanha" — aquela que aparece na Semana de Prevenção e desaparece na rotina de notas e prazos. O que se exige não são posts motivacionais, mas a revisão estrutural do método.
Até onde vai a exigência?
A vida dos alunos é o preço aceitável pela "excelência" da instituição?
A frase final da postagem ressoa como um martelo: "Nenhum sonho vale uma vida. Nenhuma nota vale um suicídio."
O IFMS tem agora em mãos mais do que um plano institucional a ser desenvolvido; tem um espelho quebrado, refletindo a falência de um sistema que está "matando aos poucos" seus jovens. O luto só será significativo se for o ponto de inflexão para uma mudança real. Não basta triar a dor; é preciso desarmar a bomba da pressão acadêmica e da desumanização.
O desafio é transformar a empatia discursada em ação sistêmica e corajosa: mais psicólogos, menos pressão em períodos críticos, professores e gestores treinados para a escuta e, acima de tudo, a redefinição do que é "excelência". A verdadeira excelência deve ser medida pela capacidade de formar e manter vivas as mentes brilhantes que entram em seus portões, não pelo número de diplomas ou notas máximas.
Até quando? O silêncio, como afirma a aluna, é ensurdecedor. E é ele quem está dando o "normal" que mata.
Por Alcina Reis






