O Pão com Casca e o Banquete dos Deuses


Nesta semana, estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul receberam uma boa notícia: o Restaurante Universitário passou a oferecer café da manhã. O cardápio é simples, sem luxo e sem exageros. Café com leite, pão francês e uma maçã. Para os alunos em situação de vulnerabilidade social, o valor é simbólico: apenas R$ 1. Uma iniciativa que busca garantir que jovens de baixa renda consigam permanecer estudando sem precisar escolher entre assistir aula ou matar a fome.

A cena é quase comovente. A reitora inaugura o serviço, estudantes comemoram uma refeição a mais no dia e a universidade enfrenta dificuldades até para encontrar empresas interessadas em operar o sistema nos campi do interior. Tanto que uma terceira licitação precisará ser lançada para tentar levar o benefício a cidades como Corumbá, Aquidauana e Três Lagoas.

Mas basta atravessar Campo Grande e seguir rumo ao Parque dos Poderes para encontrar uma realidade completamente diferente.

Do outro lado da mesma cidade, as engrenagens da esfera pública giram sob outra lógica — e outro paladar. Ali, sob as bênçãos da mesa diretora liderada pelo deputado Gerson Claro na Assembleia Legislativa, a fome dos representantes do povo parece ser medida por uma régua consideravelmente mais dourada.

Enquanto reitores e alunos lutam bravamente para conseguir que uma empresa se interesse pela terceira licitação destinada a levar pão, café e maçã aos estudantes do interior, o Diário Oficial do Legislativo estadual surge com a leveza de um edital que prevê R$ 618 mil para serviços de café da manhã destinados aos deputados.

É verdade que estamos falando de instituições diferentes. Uma pertence à esfera federal, outra à estadual. Os recursos são distintos e as responsabilidades também. Mas a indignação não nasce da comparação entre orçamentos. Ela nasce da comparação entre prioridades.

O estudante que acorda antes do amanhecer para pegar dois ônibus e chegar à universidade sabe exatamente o valor de um real. Sabe também que um pão e uma maçã podem fazer diferença entre conseguir se concentrar numa prova ou passar a manhã inteira lutando contra a fome.

Já nos corredores do poder, parece que o conceito de necessidade ganha contornos mais sofisticados. O que para milhares de famílias representa uma refeição completa, para alguns setores da administração pública transforma-se em uma despesa tratada com absoluta naturalidade.

O problema não é servir café da manhã para deputados. Ninguém espera que parlamentares trabalhem em jejum. O problema é a mensagem que se transmite quando um simples programa de alimentação estudantil enfrenta dificuldades para se expandir enquanto contratos milionários para atender autoridades avançam sem nenhuma resistência.

A distância entre as duas mesas revela muito mais do que diferenças de cardápio. Revela a distância entre quem vive a realidade da maioria da população e quem administra os recursos que essa mesma população sustenta com seus impostos.

Em um lado da cidade, jovens comemoram um pão francês, um copo de café com leite e uma maçã por R$ 1. No outro, discute-se um contrato de R$ 618 mil para alimentar aqueles que deveriam representar justamente esses jovens.

E talvez seja esse o aspecto mais triste de toda essa história.

Não a existência do café da manhã dos deputados.

Mas o fato de que o café dos estudantes ainda precise ser tratado como um privilégio, quando deveria ser um direito básico.

Enquanto isso não mudar, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro: a população contando moedas para garantir o mínimo e os poderosos justificando gastos para manter o máximo.

E depois ainda se perguntam por que a confiança da população na política continua tão difícil de alimentar.


Por Alcina Reis

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