“O Painel da Vergonha”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Em um ato que beira o surreal, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul foi a Brasília não para pedir socorro, não para apresentar um plano de guerra contra o extermínio de mulheres, mas para ser laureado. O prêmio? Por ter criado um "Monitor da Violência", um painel digital que, com frieza tecnológica, registra e exibe cada vida brutalmente interrompida pelo feminicídio.

É de cortar o coração e ferir a alma. Enquanto famílias se despedem de suas filhas, mães, irmãs, o poder Judiciário do estado, que soma 24 feminicídios apenas neste ano de 2025, gasta tempo e recursos públicos para mapear a própria incompetência em um gráfico interativo e depois celebra isso como se fosse um troféu. É a mais pura e cruel encenação burocrática.

Há uma perversidade profunda nessa lógica. Transformar a dor alheia em dado estatístico, a angústia em métrica, o luto em um número num painel de "boas práticas", é uma afronta direta a todos que perderam suas entes queridas. Enquanto a Justiça ganha prêmios em eventos solenes, o que ganham os familiares? Que assistência os enlutados recebem pós-morte? Além de um vazio eterno e a luta solitária por respostas, que apoio concreto o Estado oferece a essas famílias destruídas?

O que se espera de um Tribunal de Justiça é julgamento, é celeridade processual, é garantir que os agressores sejam punidos com o rigor da lei e que novas vítimas sejam protegidas. Não que ele se torne um curador de obituários digitais. 

O prêmio, nesse contexto, não é um reconhecimento; é um monumento à inércia.

É o equivalente a entregar um troféu para uma equipe médica que, em vez de operar um paciente em hemorragia, se dedica a criar um belíssimo e detalhado mapa da mancha de sangue no chão. A ferramenta, por mais bem-intencionada que pareça, não previne, não pune e não protege. Ela apenas cataloga a falência do sistema que deveria agir.

A verdadeira "boa prática" que esperamos ver premiada é a da condenação exemplar dos assassinos. É a da efetivação de medidas protetivas que não sejam apenas papéis esquecidos em uma gaveta. É a de um sistema que funcione para impedir o crime, e não apenas para documentá-lo com precisão macabra. Para casos tão bárbaros como os feminicídios, que ceifam vidas e destroem famílias, não há punição que seja excessiva. É urgente que o debate sobre a prisão perpétua entre em pauta - não por vingança, mas por justiça. Para que monstros que extinguem vidas de forma tão cruel não tenham jamais a oportunidade de repetir seus crimes.

Que a sociedade não se deixe enganar por esse teatro de dados e painéis. A homenagem não deveria ser ao cartógrafo da tragédia, mas aos que de fato a impedem. E até lá, resta-nos a indignação perante essa ideia doente que, vestida de modernidade, não serve para nada além de nos lembrar, diariamente, de tudo aquilo que falhou. 

Prisão perpétua já.

Por Alcina Reis

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