
| Créditos: IA /Conteúdo MS
É um hábito quase inato do ser humano buscar alívio na palavra. A garganta aperta, o peito estufa, e a necessidade de desatar os nós se impõe. Chamamos a isso desabafo. E, na sociedade em que o capital é o deus visível, o primeiro reflexo é apontar o dedo para a carteira. "É o dinheiro, a situação financeira que me aperta", dizemos.
Mas, sinceramente, quantas vezes a cifra na conta bancária é apenas o sintoma, e não a doença?
A vida nos ensina que o verdadeiro desabafo reside em confessar a causa por trás do saldo zero. É o sentimento de impotência que nos corrói. A frustração de olhar para o futuro e ver o mesmo muro intransponível. É nesse momento que o eu se encontra nu, e é preciso ter a coragem hercúlea de olhar esse eu de frente, sem a maquiagem da vitimização.
Assumir que somos passíveis de erro não é atestado de incompetência; é a mais pura declaração de humanidade.
No entanto, vivemos mascarando essa fragilidade, como se fôssemos entidades imunes ao tropeço. E o roteiro é velho: transferimos a culpa — para o governo, para o chefe, para o mercado, para o destino. A culpa é sempre do outro pelo desmembramento das coisas ruins que nos acontecem.
Mas somos, inegavelmente, a soma de nossas escolhas e fragilidades.
A vida é um grande rio, e as escolhas são as pequenas pedras que movemos para cá e para lá, alterando o curso da água. E, veja bem, a culpa não é do outro, mas quer saber? Nem sua, também.
Insano seria alguém, em sã consciência, tomar uma atitude na certeza de que ela o levará à desgraça. Ninguém escolhe o fracasso por esporte.
O que nos falta, na maioria das vezes, é a tal da sabedoria emocional. Aquele momento de respirar, de dar o passo atrás antes de falar o que não volta ou de fazer o que não se desfaz. É a incapacidade de medir as consequências, sejam elas boas ou ruins, antes que elas se materializem.
A maturidade, essa velha senhora, é quem costuma distribuir essa sabedoria, mas ela não é um presente dado a todos com o passar dos anos. Muitos, mesmo com a idade avançada, ainda não se percebem nesse processo, vivendo a vida como um eterno adolescente irresponsável.
Desabafar, portanto, é menos sobre reclamar do que se perdeu e mais sobre assumir a própria bússola.
É reconhecer o erro, não para se punir, mas para calibrar o prumo. A força reside em admitir a fraqueza, e a sabedoria, em aprender com ela. Os nós da garganta só se desatam de verdade quando paramos de procurar bodes expiatórios e começamos a nos responsabilizar pelo mapa da nossa própria existência.
No fim, desabafar é apenas admitir que estamos vivos — e que viver exige coragem para se enxergar sem máscaras, sem desculpas e sem medo.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS






