
| Créditos: Foto: Reprodução/Topmidia
É preciso reconhecer o inegável: o vereador Rafael Tavares (PL) não se cansa de passar vergonha. No histórico recente, o parlamentar já acumulou uma condenação judicial por crime de ódio (por incitar a violência contra minorias em redes sociais) e ainda teve seu mandato de deputado estadual cassado por fraude eleitoral (descumprimento da cota de gênero pelo partido). Com tal currículo controverso, seria de esperar um mínimo de decoro e prudência na interação pública. Mas o que se vê é a insistência em descer o nível.
A internet se tornou a praça pública da política, mas, em vez de ideias, o que se troca por lá é um festival de desaforos e falta de civilidade. O caso entre Tavares e o cidadão Alex Frazon não é uma exceção; é um sintoma triste e recorrente do nosso tempo.
Tudo começou, ironicamente, com um debate sobre saúde pública e ética no trabalho — o projeto de lei buscava fiscalizar a emissão de atestados médicos. Um tema sério. Mas a seriedade parou por aí.
O internauta criticou, exerceu seu direito (e dever) democrático de fiscalizar quem o representa, expressando o desejo de não vê-lo reeleito. O que se esperava do parlamentar, pago com o nosso suor e ciente de seu passado problemático, era uma resposta à altura do cargo: defesa do projeto, argumentos, dados.
O que ele entregou? Um ataque pessoal: "Apaguei o que, mané? Você tem problema mental? Vai dormir!".
A partir desse ponto, o vereador desceu a ladeira do decoro, trocando o púlpito da Câmara pela caixa de comentários. O embate seguiu com ofensas de ambas as partes, mas a resposta final de Tavares é um primor da arrogância do poder. Quando o eleitor lembrou que paga o salário do político, o vereador, com a fleuma de um barão, o chamou de "analfabeto funcional" e calculou sua parte no ordenado: "Sua parte do meu salário deve dar uns cinquenta centavos. Passa no meu gabinete que eu devolvo."
Eis o auge do desprezo. Os cinquenta centavos de deboche encapsulam a distância abissal entre o eleito e o eleitor. A mensagem subliminar é clara: sua crítica é irrelevante, sua participação cívica é uma migalha. O homem que deveria representar o povo, o trata como um pedinte que pode ter seu trocado devolvido, desde que se cale.
Não surpreende, portanto, que a briga tenha descambado para o que a crônica original chamou de "promessa de porrada". O cidadão, indignado com o tratamento de desdém e a falta de debate inteligente, partiu para a ameaça de violência física, convidando o vereador para um fight club no gabinete.
É o retrato da nossa política: o vereador transforma a tribuna em ringue de insultos, e o eleitor, desassistido de argumentos civilizados, responde na única linguagem que parece ter restado no debate público: a da agressão. Não há vencedores nesse bate-boca, apenas a constatação melancólica de que a representação popular, em vez de elevar o debate, optou por se afundar na lama do "problema mental" e do "político de merda". E o pior: a conta, certamente, é muito mais salgada do que cinquenta centavos.
Por Alcina Reis

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