
| Créditos: IA /Conteúdo MS
O Brasil voltou a falar pelas ruas. E quando isso acontece, não se trata de acaso, nem de mero movimento episódico. Trata-se de um sinal claro de desgaste entre a sociedade e aqueles que exercem o poder político como se ele fosse permanente, pessoal e imune à vontade popular. As manifestações recentes escancararam esse distanciamento e colocaram sob os holofotes a postura dos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre.
Ambos têm adotado uma condução política que ignora, minimiza ou contorna o sentimento coletivo. Amparados por interpretações regimentais e decisões tomadas a portas fechadas, agem como se o Congresso estivesse acima da crítica pública e como se a população devesse apenas aceitar, em silêncio, escolhas que afetam diretamente o presente e o futuro do país. Trata-se de uma lógica perigosa, incompatível com o espírito democrático.
O que as ruas mostraram é que a sociedade não está mais disposta a compactuar com esse modelo de poder autocentrado. Não há mais espaço para a acomodação política nem para decisões que atropelam a legislação sob o argumento de conveniência institucional. Mandato não confere soberania absoluta, e cargo não transforma representantes em proprietários da República.
O alcance das mobilizações revela a profundidade do descontentamento. Artistas, lideranças sociais e cidadãos comuns ocuparam o espaço público para reafirmar um princípio básico: democracia exige escuta, transparência e respeito. Quando nomes históricos da música popular brasileira se unem às manifestações, o gesto ultrapassa o simbolismo cultural e assume um peso político inegável. A arte, nesse contexto, não entretém — denuncia, convoca e legitima.
Hugo Motta e Davi Alcolumbre conseguiram, talvez sem perceber, produzir um efeito inverso ao desejado. Ao tentar blindar o Congresso da pressão popular, acabaram ampliando a mobilização. Transformaram insatisfação difusa em cobrança organizada. O recado é inequívoco: a sociedade acompanha, compreende e reage.
Ignorar esse movimento é insistir em um erro histórico já conhecido. As maiores crises institucionais do país nasceram exatamente da desconexão entre poder e povo. Quando o Congresso se fecha em si mesmo, fragiliza a confiança pública e alimenta a percepção de que decisões são tomadas em benefício de poucos, não do interesse coletivo.
O editorial não defende rupturas, mas alerta para responsabilidades. O papel das lideranças do Legislativo não é governar contra as ruas, mas dialogar com elas. Democracia não se sustenta apenas em ritos formais; ela depende de legitimidade social contínua. E essa legitimidade, neste momento, está sendo exigida com firmeza.
As ruas falaram. Cabe agora ao Congresso decidir se continuará fingindo não ouvir — ou se compreenderá que, em uma democracia, nenhum poder é absoluto e nenhum cargo está acima da vontade popular.
Por Alcina Reis






