O Amor nos Tempos do “Arrasta para o Lado”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Houve um tempo em que o Dia dos Namorados era anunciado pelo perfume das flores que chegavam de surpresa no trabalho, por cartas escritas à mão cuja tinta às vezes borrava com o suor nervoso dos dedos, e por telefonemas interurbanos que custavam uma pequena fortuna, mas valiam cada segundo de silêncio compartilhado.

Hoje, o amor ganhou o superpoder da instantaneidade. Amamos em alta definição, mandamos "bom dia" com emojis de coração e sabemos a localização exata do outro em tempo real. Mas, ironicamente, na era da hiperconexão, celebrar o Dia dos Namorados tornou-se um ato de quase resistência.

Em um mundo pautado pelo imediatismo e pelo descarte rápido — onde se substitui uma conversa difícil por um "block" e uma insatisfação por um novo match —, parar para celebrar o outro virou artigo de luxo. Há quem olhe para o dia 12 de junho com um certo cinismo corporativo, rotulando a data como mera invenção do comércio. E, de fato, as vitrines lotadas e os menus sazonais com preços duplicados tentam nos convencer disso. No entanto, reduzir essa data ao consumo é perder a poesia de vista.

A verdadeira importância do Dia dos Namorados nos dias de hoje não está no tamanho do presente embrulhado em papel de grife, mas sim no tamanho da pausa.

Valorizar essa data hoje significa silenciar as notificações do celular para ouvir como foi o dia do outro. Significa olhar nos olhos sem uma tela intermediando o brilho do olhar. É um lembrete anual de que, em meio ao caos da rotina, do trabalho e das metas de produtividade, existe um porto seguro que escolhemos navegar juntos.

Celebrar o amor romântico na atualidade é uma oportunidade de renovar os votos da paciência e do afeto. É o momento de lembrar por que, entre tantos perfis e possibilidades no mundo, aquela pessoa específica é quem faz o nosso peito aquecer. Seja jantando em um restaurante estrelado ou dividindo uma pizza barata no sofá da sala, o valor está na intenção.

No fundo, o Dia dos Namorados resiste porque precisamos dele. Precisamos de um pretexto oficial para sermos deliberadamente românticos, bregas e vulneráveis. Afinal, em uma época onde tudo é efêmero e corre na velocidade de um feed de notícias, o amor verdadeiro ainda é a única coisa que nos faz querer que o tempo pare.

 

Por Alcina Reis

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