“Nove dedos”: Lula reage a fala de Flavio
- porRedação
- 24 de Outubro / 2026
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| Créditos: Foto: Ricardo Stuckert/PR
Há quem confunda firmeza com grosseria, coragem com deboche e oposição com licença para humilhar. O debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23), mostrou mais uma vez como a política brasileira perde qualidade quando o ataque pessoal ocupa o lugar dos argumentos.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) resolveu provocar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma referência aos “nove dedos”, em alusão à perda do dedo mínimo da mão esquerda de Lula, em um acidente de trabalho, quando ele tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico.
Que tipo de argumento político precisa recorrer a uma deficiência física para tentar desqualificar um adversário? Quando faltam propostas convincentes, o deboche parece virar atalho para chamar a atenção. Só que o eleitor não é obrigado a aplaudir esse espetáculo.
A reação de Lula foi imediata. O presidente cobrou respeito e exigiu uma retratação. Diante da cobrança, Flávio pediu desculpas, afirmando que não queria ofender. Mas fica a pergunta: se não queria ofender, por que escolheu justamente uma característica física decorrente de um acidente de trabalho para fazer graça diante de milhões de brasileiros?
O episódio também provocou desconforto entre eleitores indecisos acompanhados em grupos de pesquisa qualitativa. A avaliação dos participantes mostrou que a forma de falar e tratar o adversário pesa tanto quanto o conteúdo das respostas. Em outro momento do debate, declarações de Flávio sobre a pandemia de Covid-19 também foram criticadas.
E aqui cabe um lembrete aos leitores: falta de educação, desrespeito e deboche parecem ser algumas das armas preferidas de setores do bolsonarismo quando o confronto político exige mais do que provocações. Não se trata de afirmar que todo eleitor bolsonarista age dessa maneira, mas de cobrar responsabilidade de quem escolhe representar esse campo político publicamente.
Política não é concurso de humilhação. Muito menos um palco em que vale tudo para arrancar risadas de quem já concorda com o candidato. Quem pretende governar o Brasil precisa demonstrar equilíbrio, respeito e capacidade de dialogar inclusive com quem pensa diferente.
O trabalhador que perdeu um dedo em um acidente não perde sua dignidade. Ao contrário: sua história merece respeito. Lula construiu parte de sua trajetória política falando sobre trabalho, direitos sociais e a vida de quem depende do próprio esforço para sobreviver. É legítimo criticar suas decisões, questionar seu governo e confrontar suas propostas. O que não se pode exigir é que a sociedade considere normal transformar uma deficiência física em instrumento de escárnio.
O problema vai além de Flávio Bolsonaro. É uma cultura política que, há anos, alimenta a hostilidade, incentiva a provocação e trata a grosseria como sinal de força. Nesse ambiente, pedir desculpas depois da repercussão negativa pode até reduzir o desgaste, mas não apaga a escolha inicial de atacar.
No fim, o eleitor tem o direito de perguntar: se um candidato não consegue manter o respeito em um debate, como pretende lidar com as diferenças de um país inteiro?
O Brasil precisa de propostas, não de piadas com a deficiência alheia. Precisa de respeito, não de arrogância. E precisa entender que educação não é sinal de fraqueza — é o mínimo que se espera de quem deseja ocupar a Presidência da República.






