“MP-MS Será Revendedora da Apple?”

imagem ilustrativa | Créditos: Foto: Reprodução/B4Connect


"MP-MS Será Revendedora da Apple?"

Há um cheiro no ar. Um odor pesado, que mistura o mofo do tempo com a podridão do descaso. Não é um cheiro que vem das ruas, mas dos gabinetes refrigerados dos palácios da administração pública. Um cheiro que a população sente, mas não consegue localizar, apenas sofre suas consequências.

A fonte mais recente e nauseante vem do Ministério Público do Mato Grosso do Sul. A instituição que carrega o nome de "pública" e tem na sua essência o dever de fiscalizar o dinheiro que é de todos, decidiu dar uma aula prática de como esbanjá-lo. 

Uma licitação de R$ 16 milhões para 750 iPhones de última geração. A matemática é elementar: são setecentos e cinquenta aparelhos para um quadro que não tem setecentos e cinquenta promotores. Sobra iPhone. Sobra desfaçatez. Falta vergonha!

Diante de um contrato milionário de cinco anos, em plena crise, com a escolha inexplicável por um modelo específico e de luxo, a pergunta que se impõe é direta: o MP-MS está se reinventando para virar uma revendedora autorizada da Apple? 

O comodato, nesse contexto, parece menos um empréstimo e mais um plano de negócios financiado pelo contribuinte. Os princípios constitucionais da moralidade e eficiência foram trocados pela lógica do:

 "quero porque quero e posso porque posso".

Enquanto isso, numa sintonia fúnebre perfeita, os desembargadores afastados por escândalos no Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS) começam a retornar silenciosamente aos seus tronos. 

É um balé da impunidade. Afastam-se em meio a holofotes e retornam pela porta dos fundos quando a poeira – ou a falta de memória – assenta. Os processos se arrastam, as explicações são evasivas, e a situação nunca foi esclarecida para a população.

São duas faces da mesma moeda. De um lado, a farra com o dinheiro público, a compra do supérfluo e do injustificável. Do outro, a perpetuidade da impunidade, a garantia de que os cargos e privilégios são eternos. 

Se o MP vira revendedora de smartphones, o TCE se especializa em distribuir salvo-condutos?

O advogado Ricardo Feltrin fez mais do que uma denúncia ao CNMP; ele acionou um detector de fumaça em um ambiente que já está em chamas. A questão agora é saber se o CNMP terá a coragem de apagar esse incêndio de ilegalidade ou se será conivente com o espetáculo de cinismo.

O que essas histórias nos contam é que a "detetização" urgente não é mais uma metáfora, mas uma necessidade de saúde pública. É preciso abrir as janelas, expor a sujeira e deixar o ar limpo circular. Enquanto os fiscais do dinheiro agem como garotos propagandistas de marca luxuosa e os julgadores retornam aos cargos sem dar satisfações, o cheiro só vai piorar.

E um dia, talvez, ele se torne tão insuportável que não será mais possível ignorá-lo.

Por Alcina Reis


 

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal

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