Madeira de dar nome, rede de amarrar desejo
- porRedação
- 18 de Maio / 2026
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Em Corumbá, a identidade nunca foi algo imóvel. Ela se move no compasso das águas do Pantanal, nasce nas vazantes, reaparece nas cheias e se reinventa na relação cotidiana entre o homem, o rio e a memória. É justamente dessa travessia simbólica que emerge a obra “Inventário”, de Renan Reis, transformando objetos comuns da vida pantaneira em suportes de pertencimento coletivo.
Ao deslocar o barco de pescador para dentro da galeria, a obra rompe sua função prática para revelar uma dimensão ritualística. O casco, antes destinado ao transporte e ao sustento, deixa de cortar as águas para atravessar afetos. A madeira envelhecida pelo tempo ganha nova função: torna-se superfície de escrita, testemunha silenciosa de nomes, histórias e desejos depositados por quem participa da experiência.
O termo “Inventário” deixa de significar apenas catalogação. Aqui, assume um caráter poético e quase espiritual. É um inventário das existências anônimas que compõem a alma pantaneira. Cada assinatura gravada na madeira atua como gesto de permanência diante daquilo que o tempo e a correnteza insistem em apagar. O barco converte-se em arquivo vivo de presenças.
Na chamada “madeira de dar nome”, o ato de escrever ultrapassa a simples identificação. Nomear é existir. Cada traço de caneta funciona como um batismo simbólico, devolvendo vida ao objeto e, simultaneamente, eternizando quem nele deixa sua marca. A embarcação, cansada de transportar corpos, passa a transportar memórias.
Já na “rede de amarrar desejo”, a transformação acontece de maneira igualmente profunda. A rede que antes capturava peixes para garantir sobrevivência agora acolhe esperanças. As fitas de cetim amarradas pelos visitantes substituem o peso da pesca pelo peso invisível dos sonhos. O gesto simples de amarrar uma fita converte-se em rito coletivo de entrega, fé e projeção.

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O resultado é um grande palimpsesto pantaneiro, que contou com todo apoio da equipe. Sobre a madeira marcada pelo tempo, acumulam-se camadas de identidade, afeto e memória. A antiga rede de captura ressurge como trama que sustenta desejos humanos. Nada é apagado completamente; tudo permanece sobreposto, coexistindo entre passado e presente.
A obra de Renan Reis demonstra que, em Corumbá, a identidade não é algo herdado de forma passiva. Ela é construída no encontro entre rio e homem, entre objeto e memória, entre aquilo que se perde e aquilo que se insiste em preservar. No fundo, o Pantanal ensina que existir é isso: pescar lembranças no fundo da alma e amarrar desejos firmemente na beira do rio.
Renan Reis (Curadoria e obra)






