“Entre o Grito e a Pedra”

| Créditos: Imagem criada por IA/Conteúdo MS


O burburinho segue incandescente, feito brasa mal apagada, sobre a tal anistia aos vândalos daquele fatídico 8 de janeiro. Confesso que me soa como um disco riscado, repetindo a mesma ladainha sem chegar a melodia alguma. Protestar, ah, isso sim! É direito nosso, cravado em pedra, a voz que ecoa a insatisfação, o grito que busca mudanças. Mas daí a confundir essa legítima manifestação com a selvageria da depredação, meus amigos, é como misturar água e azeite: não combina, não se junta.

Essa discussão sem fim sobre perdoar ou não quem transformou patrimônio público em escombros me parece um completo despropósito. É óbvio ululante, como diria o outro, que quem quebrou a vidraça tem que arcar com o prejuízo, tanto na frente da justiça quanto no bolso. Defender o contrário é abrir a porteira para o caos, é dizer que a destruição é carta branca em qualquer descontentamento. Imaginem a cena: a cada frustração, a cada divergência, a praça virando campo de batalha? Não, Brasil, não é por aí.

Aí vem a turma da direita, com a convicção de quem viu o saci de perto, jurando que a horda de vândalos era, em sua maioria, petista. Francamente, outra pérola da nossa rica fauna de absurdos! Façam um pequeno exercício mental comigo: se a baderna foi mesmo orquestrada pela esquerda, qual seria a lógica dessa insistente campanha da direita em anistiar os tais petistas? A conta não fecha, não bate, não faz sentido algum. É mais fácil acreditar em duendes no jardim do que nessa teoria rocambolesca.

Contudo, em um ponto, e aqui abro uma exceção à minha habitual verve crítica à polarização, sou obrigada a concordar: o ministro Alexandre de Moraes, o nosso "Xandão",tem pesado a mão em algumas penas. Exageros devem ser corrigidos. Justiça, afinal, não é vingança. Mas também não é omissão. Passar pano? Jamais. 

Protestar, sim. Depredar, não. 

No fim das contas, a linha que separa o direito de protestar da obrigação de responder pela destruição é tão nítida quanto o céu de outono aqui em Campo Grande. Uma coisa é a voz rouca da reivindicação, outra bem diferente é o estrondo dos vidros que se estilhaçam. Que a justiça siga seu curso, sem anistia para a baderna, mas com olhos atentos para que a balança não penda mais do que o necessário. 

Porque nesse Brasilzão nosso, a última coisa que precisamos é de mais lenha na fogueira da discórdia.

Por Alcina Reis

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