“Do gado ao berrante, só muda o vaqueiro”

| Créditos: Foto: Rarissa Lombardi / Instagram @berranteira_rl


Cheguei a uma conclusão que mais parece um beco sem saída: é claro e óbvio que as pessoas entendem, sim, que Alexandre de Moraes está exagerando com os anos de prisão para a galera baderneira que destruiu Brasília em 8 de fevereiro. Há um incômodo morno, uma voz interior que sussurra sobre desproporcionalidade. Porém, não convém admitir. 

Admitir seria abrir uma fresta no muro da própria tribo, e tribo que tem fresta vira alvo fácil.

Da mesma forma, e com a mesma má-fé vestida de convicção, não convém admitir do outro lado que Eduardo Bolsonaro é, na prática, um traidor da pátria. O que é um traidor senão aquele que jura defender o país e, no primeiro teste de fogo, corre para uma embaixada estrangeira pedir auxílio contra as próprias instituições? Imaginem só quantos perderam a teta nesse governo anterior? Quantos esquemas, das rachadinhas de quebra de decoro aos orçamentos secretos bilionários, foram cortados na marra? 

A boiada, aquela que prometeram passar, não era de gado pobre. Era de ouro em barras.

E agora, em compensação, os que estavam com sede no deserto mamam até se infartarem. O caso do roubo – porque é essa mesma a palavra, não há eufemismo que limpe a alma – dos aposentados do INSS é o retrato de uma crueldade institucionalizada. Um saque tão vil, tão desumano, que atinge quem já deu sua vida pelo país.

E o que vemos? Um silêncio ensurdecedor. Até agora, não um cidadão, me referindo aos ladrões, que esteja preso. Os mandantes, então, nem se fala. São fantasmas bem reais, assombrando os corredores do poder com a imunidade de quem tem o cargo mais alto.

É um ciclo de podridão que se alimenta. De um lado, os que defendem o indefensável: os atos golpistas de 8 de janeiro, as milícias digitais, a gestão genocida de uma pandemia, as rachadinhas, o escândalo das vacinas superfaturadas. Do outro, os que fecham os olhos para as velhas raposas que retornaram ao galinheiro: o mensalão, o petrolão, os acordos com as mais rasteiras bancadas do centrão, e agora, este assalto descarado aos mais vulneráveis.

E o povo? O povo assiste a tudo isso como se fosse uma novela das nove. Torce para o seu time, xinga o árbitro, comemora o gol mesmo que seja contra, desde que a camisa seja a certa. 

O que Ciro Gomes denunciava na web sobre Bolsonaro – os conchavos com Centrão, a entrega do patrimônio nacional, a absoluta falta de projeto para o país – ecoa no vácuo, abafado pelo ruído das brigas de torcida. É tudo tratado como "politicagem", como se fosse um jogo normal, e não a liquefação de um país.

Que vida de gado é essa, Brasil? 

Um vai para o abatedouro cantando hino e achando lindo o pasto de mentiras que lhe mostram. O outro vai mugindo contra o outro boiadeiro, sem perceber que o caminhão é o mesmo e o destino, idêntico.

O que mais o povo precisa pra acordar e eliminar de vez essa idolatria por Lula e Bolsonaro? 

Mais que escândalos, pois esses já estão aos montes. Mais que prisões, pois essas são seletivas e teatrais. O que falta é a lucidez fria de entender que a paixão política, quando cega, é uma forma de autoflagelo. É perceber que o inimigo não está apenas no palácio oposto, mas na própria preguiça de pensar, na comodidade da idolatria, na rendição à polarização que só serve aos poderosos de ambos os espectros.

O povo precisa parar de ser gado. Precisa lembrar que é gente. E gente exige, cobra, questiona e, sobretudo, não venera quem só quer ordenhá-la. Até que isso aconteça, a boiada continuará passando, e nós, mugindo aplausos para os nossos próprios algozes.

E que fique claro de uma vez por todas: não sou direita, não sou esquerda, defendo as causas de interesse da população brasileira e jamais venerarei este ou aquele político, e sim as suas ações dignas. 

Se respeitem, BRASILEIROS!

Por Alcina Reis

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