
O debate acalorado sobre segurança pública, o combate ao crime organizado e a atuação policial no Rio de Janeiro ganhou um novo e polêmico capítulo com as declarações do Vereador Rafael Tavares, de Campo Grande (MS). Utilizando uma linguagem forte e direta nas redes sociais, o parlamentar expressou seu ponto de vista sobre as recentes operações policiais que resultaram em execuções de suspeitos, especialmente em áreas dominadas por facções como o Comando Vermelho.
A frase de efeito que intitula esta matéria – "Direito dos manos é o cacete" – sintetiza a postura de Tavares, que critica abertamente o que ele e seus apoiadores veem como uma excessiva proteção legal aos criminosos, popularmente referida como "direitos humanos" ou, no jargão que ele adotou, "direito dos manos".
A Referência a Bukele
Em sua publicação, o vereador estabelece um paralelo com as políticas de segurança implementadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Tavares afirmou:
"O Bukele resolveu a criminalidade matando e prendendo bandido. É só fazer isso que logo não terá ninguém pra vender droga e atirar de fuzil contra polícia."
Essa comparação evoca o modelo salvadorenho de "guerra às gangues", caracterizado por prisões em massa, suspensão de garantias constitucionais e uma política de tolerância zero, que, embora tenha reduzido drasticamente as taxas de homicídio em El Salvador, é alvo de intensa condenação internacional por violações de direitos humanos e excessos.
O Contexto Carioca e a Fratura Nacional
As declarações de Rafael Tavares surgem em um momento em que a opinião pública brasileira se divide entre o apoio a uma resposta enérgica e letal da polícia contra o crime organizado e a defesa intransigente dos direitos humanos e do devido processo legal. As operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro frequentemente terminam com um alto número de mortos, levantando questionamentos sobre a legalidade das ações e o uso desproporcional da força.
De um lado, a polícia e seus defensores alegam legítima defesa e o combate necessário contra criminosos fortemente armados que desafiam o Estado. De outro, ativistas e entidades de direitos humanos denunciam execuções sumárias, letalidade policial excessiva e a violência que atinge principalmente a população mais pobre e negra das favelas.
A posição de Tavares, embora polêmica, espelha um sentimento de frustração de parte da sociedade brasileira que se sente refém da violência e vê na adoção de medidas extremas a única solução.
O Perigo do Ato Contínuo e a Hipocrisia no Poder
Penso que, tirando os parentes e amigos desses mortos executados, o restante do país, assim como eu, queremos mesmo nos livrar desse problema. A sensação de impotência e o medo são combustíveis poderosos para discursos que prometem soluções rápidas e duras. No entanto, não podemos jamais esquecer que vivemos em um país DEMOCRÁTICO e temos uma CONSTITUIÇÃO, a qual somos obrigados a seguir e que, sim, destaca os direitos humanos. Se os nobres parlamentares, incluindo o próprio Tavares, julgam essas leis um empecilho, que as mudem através dos meios legais, e não as ignorem em discursos de ocasião.
Um dos perigos mais graves desses confrontos é justamente o fato de que já não é mais segredo para ninguém que muitos políticos estão envolvidos com essas facções e se beneficiando em suas carreiras políticas lavando dinheiro para o crime. Estimular essa guerra, sem um projeto de Estado sério e sem atacar as raízes do problema, me parece bem perigoso para a população.
O crime é, sim, organizado — mas e o Brasil?
O problema, que é extremamente grave, não é só do Rio de Janeiro, é de todo o país. E aqui, em Mato Grosso do Sul, a questão é ainda mais sensível: temos nossas fronteiras, e daqui se abastece o país. O que se discute no Rio tem eco direto na nossa segurança local. Enquanto o debate se polariza entre "direitos dos manos" e "solução Bukele", a máquina do crime, muitas vezes com conivência de quem deveria combatê-la, não para.
Tomem providências urgentes, senhores governantes!
Mas que sejam providências dentro da lei, com inteligência, atacando o financiamento do crime e a corrupção que o sustenta. Pois de discursos inflamados que podem servir apenas para alimentar um ciclo de violência sem fim e desrespeitar o Estado de Direito que juramos defender, o povo brasileiro já está mais do que cheio.
Por Alcina Reis

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