Acordo Mercosul–União Europeia abre nova rota para exportações de MS

Presidente do Sistema Famasul, Marcelo Bertoni afirma que o acordo é visto “com bons olhos”, sobretudo diante das mudanças recentes no comércio global. Desde 1º de janeiro de 2026, a China passou a aplicar uma tarifa adicional de 55% sobre o volume de carne bovina que ultrapassar a cota de importação estabelecida, o que afeta diretamente países exportadores como o Brasil.

“Estamos enfrentando a taxação da China, que pode nos afetar diretamente. Por isso, enxergamos essa negociação como uma saída importante para diversificar mercados e reduzir riscos”, destacou Bertoni.

O agronegócio é um dos principais pilares da economia sul-mato-grossense, e especialistas avaliam que o acordo com a União Europeia pode abrir novas oportunidades, diminuindo a dependência de mercados tradicionais e fortalecendo a presença brasileira em regiões de alto poder aquisitivo.

Apesar de o texto prever cotas para produtos sensíveis, como a carne bovina, Bertoni avalia que o avanço das tratativas já representa um marco histórico. “O acordo pode até ser assinado rapidamente, mas ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu e pelo Congresso Nacional no Brasil. Isso leva tempo, mas é um passo fundamental. Esperamos há mais de 25 anos para exportar carne para a União Europeia com melhor preço e com a alta qualidade oferecida pelo nosso produto”, afirmou.

Resistência francesa ainda preocupa

Mesmo com apoio institucional, o acordo ainda enfrenta resistências políticas dentro da União Europeia, especialmente na França. O presidente francês Emmanuel Macron lidera a oposição, impulsionado pela pressão de agricultores locais, que temem a concorrência dos produtos do agronegócio brasileiro.

Para o senador sul-mato-grossense Nelsinho Trad (PSD), a resistência francesa vai além das alegações sanitárias. “É muito difícil achar um denominador comum com a França, mas não impossível. Dos 27 países da União Europeia, 20 são favoráveis. Precisamos nos apegar a esses países que reconhecem a importância do agronegócio brasileiro”, afirmou.

Próximos passos do tratado

O acordo foi aprovado nesta sexta-feira (9) pelo Conselho da União Europeia e tem assinatura prevista para o próximo dia 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai. Se confirmado, criará a maior zona de livre-comércio do mundo, reunindo cerca de 700 milhões de consumidores e um PIB combinado de aproximadamente US$ 22,3 trilhões.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve participar da assinatura oficial. Depois disso, o texto seguirá para análise do Parlamento Europeu. Já as cláusulas que envolvem aspectos técnicos, ambientais e institucionais precisarão ser ratificadas pelos parlamentos nacionais dos países da UE, o que pode estender o cronograma de entrada em vigor.

O que muda com o acordo

O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços. O Mercosul zerará tarifas sobre 91% dos produtos europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.

No setor industrial, vários produtos terão tarifa zero desde o início, beneficiando segmentos como máquinas e equipamentos, automóveis e autopeças, produtos químicos e aeronaves.

Para o agronegócio, produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de exportação. Acima desses limites, haverá cobrança de tarifas, que tendem a ser reduzidas ao longo do tempo. O objetivo é evitar impactos bruscos sobre os agricultores europeus.

O acordo também inclui salvaguardas agrícolas, permitindo que a União Europeia volte a aplicar tarifas temporárias caso as importações cresçam além do esperado ou pressionem excessivamente os preços internos.

Compromissos ambientais e regras rigorosas

O texto estabelece cláusulas ambientais vinculantes: produtos beneficiados não poderão estar associados a desmatamento ilegal, e o descumprimento do Acordo de Paris pode levar à suspensão do tratado. As regras sanitárias europeias também permanecerão rigorosas, mantendo padrões elevados de segurança alimentar.

Além disso, o acordo amplia o comércio de serviços, facilita investimentos, abre compras públicas europeias para empresas do Mercosul, reforça a proteção à propriedade intelectual e cria mecanismos específicos para pequenas e médias empresas, reduzindo burocracia e custos.

Impacto para o Brasil e para MS

Para o Brasil e, em especial, para Mato Grosso do Sul, o acordo representa a possibilidade de ampliar exportações, atrair investimentos e integrar o país a cadeias globais de valor mais sofisticadas. Em um momento de incertezas no comércio com a Ásia, o mercado europeu pode se tornar uma rota estratégica para sustentar o crescimento do agronegócio e da indústria brasileira nos próximos anos.

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