“A direita virou negócio de família?”
- porPor Alcina Reis
- 29 de Outubro / 2026
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Seria mais uma tentativa frustrada de manter Jair Bolsonaro como o grande líder da direita brasileira? A história da carta de Flávio Bolsonaro e as declarações de Valdemar Costa Neto levantam uma pergunta incômoda: até que ponto o bolsonarismo está preocupado com o Brasil e até que ponto está preocupado apenas em preservar o próprio clã?
Segundo Valdemar, ninguém havia aprovado a carta de Flávio e Jair Bolsonaro não sabia da suposta tentativa de fuga. Ora, mas como o pai não saberia de algo que, segundo a própria narrativa política, já era cogitado por tanta gente? Se o assunto circulava nos bastidores e nas conversas públicas, a explicação de desconhecimento soa, no mínimo, conveniente. Resta saber quem sabia o quê e quem está tentando se afastar da responsabilidade agora que a história veio à tona.
Uma coisa, porém, ficou evidente para quem ainda tinha dúvidas sobre o preparo de Flávio Bolsonaro para ocupar um cargo tão importante quanto a Presidência da República: suas atitudes e decisões oferecem motivos de sobra para questionamentos. Governar o Brasil não é administrar os interesses de uma família, muito menos transformar a política nacional em um roteiro de sobrevivência de um sobrenome.
A verdade é que o clã Bolsonaro construiu sua imagem política usando símbolos nacionais, como a bandeira e as cores do Brasil, e também conquistou apoio de setores da direita e de brasileiros movidos pela fé. Mas patriotismo não se mede pela quantidade de verde e amarelo em uma manifestação, assim como fé não deveria ser usada como instrumento eleitoral. Amar o país exige compromisso com a população, responsabilidade e respeito às instituições.
A preocupação em preservar Jair Bolsonaro e seus interesses pessoais parece ocupar espaço demais nessa história. E, sinceramente, esse talvez nem seja o maior problema. O que deveria preocupar os brasileiros é a possibilidade de um projeto político colocar os interesses de uma família acima da soberania nacional.
E aqui entra outro assunto que merece atenção: Donald Trump e a cobiça internacional pelas riquezas brasileiras. O Brasil possui reservas importantes de minerais críticos e terras raras, matérias-primas estratégicas para a indústria tecnológica, a transição energética e a defesa. Estados Unidos e China disputam influência sobre essas cadeias produtivas, e o Brasil precisa saber negociar sem entregar suas riquezas de bandeja a quem quer que seja.
Não é necessário inventar uma invasão ou afirmar que as reservas seriam automaticamente saqueadas para perceber o risco. Pressões econômicas, acordos desequilibrados e interesses geopolíticos existem. Por isso, a defesa da soberania brasileira precisa estar acima das conveniências eleitorais e das afinidades pessoais com qualquer presidente estrangeiro.
Imaginem, então, um governo brasileiro disposto a se curvar a interesses externos apenas para agradar a Casa Branca. Seria uma péssima notícia para quem trabalha, produz e vive neste país. O Brasil não é propriedade de Trump, não é quintal dos Estados Unidos e muito menos deve ser tratado como território disponível para exploração.
Brasileiros, é hora de abrir os olhos. A política não pode ser um espetáculo permanente de versões convenientes, desmentidos e disputas familiares. Quando surgem contradições, é preciso cobrar explicações, conferir os fatos e não aceitar qualquer narrativa só porque ela vem de alguém que veste a camisa do mesmo time político.
E não duvidem de que, em um ambiente de disputa política, novas versões, acusações e tentativas de desestabilização possam aparecer. Justamente por isso, é fundamental separar fatos comprovados de especulações e não permitir que a democracia seja enfraquecida por campanhas de desinformação, venham de onde vierem.
Quanto à direita brasileira, fica uma pergunta: até quando vai aceitar ser tratada como extensão de uma família? Há conservadores, liberais e cidadãos de direita que têm suas próprias ideias, propostas e compromissos com o país. Eles não precisam permanecer presos a um sobrenome para defender seus princípios.
Aos bolsonaristas que ainda enxergam o clã como o suprassumo da política, fica o convite para acordar. Lealdade política não precisa ser cegueira, e admitir erros não é traição. Se a direita quer continuar relevante, precisa recuperar a capacidade de pensar, questionar e apresentar um projeto para o Brasil — não apenas para Bolsonaro e seus parentes.
Porque, no fim das contas, a bandeira é brasileira, o dinheiro público é do povo e a Presidência da República não é herança de família.
Acordem, brasileiros! E, à direita que ainda tem juízo, está na hora de salvar a própria imagem antes que o bolsonarismo continue confundindo liderança política com propriedade particular.
Por Alcina Reis






